Raymond James, uma das casas de análise mais respeitadas do mercado americano, elevou o preço-alvo das ações da Camden National Corporation com a justificativa de que o banco está se beneficiando do crescimento das tarifas. Traduzindo do dialeto de Wall Street para o português dos mortais, isso significa que um banco regional do Maine vai ganhar mais dinheiro porque o consumidor americano, e por tabela o brasileiro que importa qualquer coisa dos Estados Unidos, vai pagar mais caro por bens que antes circulavam livremente. E o analista, sentado em sua mesa de Nova York, transforma esse confisco disfarçado em recomendação de compra. Bonito, não?
O que ninguém quer dizer em voz alta é que tarifa é imposto. Não é estratégia industrial, não é defesa do trabalhador, não é segurança nacional. É imposto cobrado na fronteira que encarece tudo que cruza a alfândega, e que invariavelmente é repassado para o preço final. Quando o governo aumenta tarifas, ele não está protegendo a indústria nacional, está cobrando pedágio do consumidor para sustentar setores incapazes de competir sem muleta estatal. E os bancos regionais, que financiam essas indústrias subsidiadas, aplaudem de pé. Claro que aplaudem. O lucro deles vem da distorção, não da eficiência.
Olha, o detalhe perverso da operação é que o mercado financeiro aprendeu a precificar a intervenção estatal como ativo. Não importa se a política é ruim para a economia real, importa se beneficia o setor que a casa de análise cobre. Camden National sobe porque empresas locais protegidas vão tomar mais crédito, e mais crédito significa mais juros recebidos, e mais juros recebidos significam EPS mais gordo no próximo trimestre. O ciclo é elegante e podre ao mesmo tempo. Quem paga a conta é quem nunca vai aparecer no relatório do analista, o sujeito que vai ao supermercado e nota que a embalagem encolheu mas o preço subiu.
Me diz uma coisa, alguém realmente acredita que prosperidade construída sobre tarifa é prosperidade duradoura? Toda vez que uma nação tentou enriquecer fechando suas fronteiras ao comércio, o resultado foi o mesmo: indústrias acomodadas, consumidores empobrecidos, retaliação dos parceiros comerciais e, no fim do filme, recessão. A história econômica dos últimos três séculos é um monumento ao fracasso do protecionismo, mas a cada geração surge um novo profeta prometendo que dessa vez é diferente. E os bancos, sempre os bancos, lucram tanto na subida quanto na descida da maré.
O que torna essa elevação de preço-alvo tão emblemática é justamente sua naturalidade. Não há escândalo, não há denúncia, não há sequer constrangimento. Um analista séria e profissionalmente recomenda comprar ações de um banco que vai lucrar com o encarecimento da vida alheia, e o noticiário econômico publica como se fosse boletim meteorológico. Esse é o estado da civilização financeira contemporânea: a captura regulatória virou tese de investimento, e o saque organizado, modelo de negócio. Quando o sistema bancário comemora o aumento de impostos, é porque o sistema bancário já não trabalha para você.
Resta a pergunta inconveniente, aquela que ninguém na CNBC vai fazer ao próximo CEO entrevistado: se o crescimento depende de tarifa, é crescimento ou é parasitismo institucionalizado? A resposta está no preço do feijão, no preço do aço, no preço do carro, no preço de tudo que você compra e que ficou mais caro para que um balanço bancário em Maine ficasse mais bonito. Tarifa não cria riqueza, ela apenas redistribui a riqueza existente dos muitos para os poucos. E quem aplaude esse jogo cedo ou tarde descobre que estava do lado errado da mesa.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.