A notícia veio seca, como costuma vir o aviso de despejo: a Raymond James reduziu o preço-alvo das ações da Capri Holdings, dona de Michael Kors, Jimmy Choo e Versace, apontando o dedo para o impacto das tarifas comerciais americanas sobre a estrutura de custos da companhia. Quer dizer, o mesmo arranjo que foi vendido nos comícios como muralha protetora do trabalhador americano agora aparece nas planilhas dos analistas como pedra amarrada no pescoço de uma empresa que emprega, paga imposto e move cadeias inteiras de varejo. Surpreso? Só quem dormiu nas últimas trezentas anos de história econômica.

O mecanismo é tão antigo que dá preguiça de explicar, mas vamos lá, porque a cada geração reaparece um aprendiz de feiticeiro jurando que dessa vez vai funcionar. Você taxa o produto importado, o custo sobe para o importador, o importador repassa para o varejo, o varejo repassa para o consumidor e, quando o consumidor não aguenta o repasse, a empresa come a diferença na margem até a margem virar prejuízo. No fim da fila, o operário americano que iria ser protegido descobre que a bolsa Michael Kors ficou mais cara, que a Capri demitiu na loja do shopping local, e que o fundo de pensão dele, recheado de ações americanas, está valendo menos. Patriotismo caro, esse.

Siga o dinheiro, que é onde a brincadeira sempre acaba. Quem ganha com tarifa? Não é o consumidor, que paga mais. Não é a empresa importadora, que vê o múltiplo despencar. Não é o acionista, que vê o preço-alvo ser cortado por casas como Raymond James. Ganha o concorrente doméstico já estabelecido, que agora pode cobrar mais sem precisar competir, e ganha o político que vende a foto na fábrica como se ele tivesse criado algo. O resto da população financia o espetáculo via preço, via desemprego no varejo e via desvalorização patrimonial. É confisco com cerimônia, e tem até banda tocando.

O detalhe deliciosamente irônico é que a Capri não é uma fabricante de aço chinês subsidiado pelo Partido Comunista. É uma holding americana de marcas de luxo que monta produto numa cadeia global porque cadeia global foi exatamente o que tornou possível um país inteiro consumir bolsa de grife sem pedir empréstimo ao agiota da esquina. Taxar essa cadeia em nome da indústria nacional é como queimar a ponte porque o vizinho do outro lado do rio anda atravessando demais. No fim, ninguém atravessa, e o seu lado da margem também empobrece, porque era pela ponte que vinha o comércio que pagava o salário do ferreiro local.

E olha a beleza do que não se vê, porque é nisso que mora o crime. A manchete fala do corte de preço-alvo, fato visível, mensurável, registrado em relatório de analista. Não fala dos pedidos que a Capri vai cancelar, das marcas menores que dependiam dela e que vão à breca, dos trabalhadores em quinze países que perdem horas de trabalho, do consumidor que troca a compra por uma economia forçada que o discurso oficial vai chamar de "consumo consciente". A tarifa cria uma janela quebrada e o governo posa de pedreiro, cobrando hora extra pela reconstrução de algo que ele próprio quebrou. Velho truque, plateia nova.

Me diz uma coisa: se proteção tarifária funcionasse, a Argentina seria a Suíça da América Latina e a Coreia do Norte exportaria mais que a do Sul. O que funciona, e a história não cansa de repetir para quem tem ouvidos, é trocar bens livremente, deixar o preço dizer a verdade e deixar o consumidor decidir. Tudo o mais é encenação política financiada pelo bolso de quem nunca foi convidado para a festa. A Raymond James apenas botou em planilha o que qualquer pessoa com memória de criança já sabia. A conta da demagogia sempre chega, e ela vem assinada pelo investidor, pelo trabalhador e pelo consumidor, nessa ordem.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.