A Raymond James, casa de análise que raramente joga confete, baixou o preço-alvo das ações da CGI Group e a justificativa veio sem maquiagem: crescimento orgânico fraco. Traduzindo do dialeto financeiro para o português dos mortais, a companhia até apresenta números de receita que parecem decentes nas apresentações de Powerpoint, mas quando se separa o que veio de aquisição daquilo que veio do trabalho real de vender mais para clientes reais, sobra pouco. Muito pouco. E analista sério não engole indefinidamente esse tipo de mágica contábil.
Aqui está o ponto que ninguém quer dizer em alto e bom som nas teleconferências de resultado: comprar empresa não é crescer, é gastar. Quando uma corporação sustenta sua narrativa de expansão à base de cheque, ela está comprando receita pronta no varejo, embrulhando num papel de presente chamado sinergia e revendendo para o acionista como se fosse fruto de competência operacional. É o equivalente empresarial daquele sujeito que herda fazenda e se apresenta como produtor rural de sucesso. O dinheiro está lá, o título está lá, a competência é que ficou no cartório.
O caso da CGI ilumina uma doença crônica do capitalismo financeirizado contemporâneo, em que o crescimento por fusões e aquisições virou atalho preferido por executivos cujo bônus depende mais de manchete trimestral do que de construção paciente de mercado. Custa menos integrar uma adquirida, demitir o time redundante e contabilizar a receita somada do que sair na rua, brigar por cliente, inovar produto e ganhar mercado no tapa. Só que essa estratégia tem um limite matemático cruel, e ele se chama exaustão de alvos baratos. Quando os múltiplos sobem e os bancos centrais param de servir crédito a juro de banana, a brincadeira desmonta.
Vale seguir o dinheiro com calma, como sempre. A indústria de consultoria em tecnologia foi inflada por mais de uma década de juros baixos, transformação digital empurrada goela abaixo de empresas e gastos públicos generosos com modernização de aparato estatal. Governos do mundo inteiro, e Canadá não é exceção, despejaram bilhões em contratos de TI gigantescos com pouquíssima fiscalização sobre entrega real. Companhias como a CGI mamaram nessa teta com sofreguidão. Agora que o ciclo de crédito vira, que orçamentos públicos começam a ser questionados e que o cliente privado finalmente pergunta para que serve aquele projeto de três anos que nunca terminou, a verdade aparece nua na régua do crescimento orgânico.
O mais saboroso é a hipocrisia do mercado, que finge surpresa diante de algo que era óbvio para qualquer um disposto a olhar. Os fundamentos são os fundamentos, sempre foram, sempre serão. Vender mais para mais gente, com margem decente, sem precisar engolir concorrente toda terça-feira, é a única definição honesta de uma empresa que cresce. Tudo o mais é financial engineering, e financial engineering é primo distante da alquimia medieval, com a diferença de que o alquimista pelo menos acreditava no que prometia. O executivo moderno sabe que está empurrando fumaça e mesmo assim cobra stock options pela performance.
A lição que fica vale para muito além da CGI. Toda vez que ouvir um CEO falando em crescimento sem detalhar quanto veio de aquisição, desconfie. Toda vez que ler relatório elogiando expansão sem abrir a conta orgânica, desconfie mais ainda. E toda vez que um banco de investimento finalmente decide rebaixar uma queridinha do setor, entenda que ele está apenas confirmando publicamente o que os números já gritavam há trimestres. O mercado é lento para reconhecer o óbvio, mas é implacável quando reconhece. Quem cresce comprando, um dia precisa mostrar que sabe vender.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.