A Raymond James olhou para o balanço da Taylor Morrison, fez as contas, ajustou a gravata e reiterou a classificação das ações depois de um trimestre descrito como resiliente. Margem bruta preservada, entregas dentro do guidance, preço médio por unidade em patamar que faria um pedreiro brasileiro rir de nervoso. E o analista assina embaixo, coloca o selo de "outperform" ou coisa equivalente, e segue a vida como se estivesse descrevendo o estado natural das coisas. Só que não há nada de natural aqui. Há um mercado imobiliário americano viciado em juros suprimidos, construtoras que aprenderam a jogar o jogo da escassez artificial, e bancos de investimento que vivem da encenação de que tudo isso é performance empresarial, não subproduto de impressora ligada.
Vamos ao que o relatório não diz, porque o que se vê no release trimestral é sempre menos interessante do que aquilo que ninguém quer apontar. A Taylor Morrison, como qualquer grande builder americano, opera num ambiente em que o custo do dinheiro foi artificialmente manipulado por mais de uma década. Quando o Fed derruba o custo do crédito, o preço dos imóveis sobe; quando sobe os juros mas injeta liquidez por outras vias, o preço dos imóveis continua subindo. A construtora não é genial, é beneficiária. Não existe trimestre resiliente, existe trimestre subsidiado. A diferença é fundamental, e nenhum relatório de equity research vai admitir isso porque admitir isso é morder a mão que alimenta o setor inteiro.
Siga o dinheiro e a coisa fica ainda mais clara. O comprador médio de uma casa Taylor Morrison hoje está travando financiamento em condições que só existem porque o governo americano garante, subsidia ou recompra boa parte da dívida hipotecária via Fannie Mae e Freddie Mac. Quer dizer, o contribuinte, aquele sujeito que nunca vai comprar uma casa nova em subdivision da Flórida, está pagando para que o mercado continue precificando como se a demanda fosse orgânica. Não é. É demanda inflada por engenharia financeira estatal, e o lucro dessa engenharia aparece no balanço da construtora e vira bônus de executivo e recompra de ação. A privatização do ganho e a socialização da bolha caminham juntas há tanto tempo que viraram paisagem.
O curioso é o vocabulário. "Resiliente" é a palavra favorita do analista quando a empresa sobreviveu a um cenário que ele mesmo, meses atrás, previu que seria catastrófico. O cenário não veio, e agora a sobrevivência vira virtude. Olha, sobreviver a uma tempestade que nunca chegou não é resiliência, é sorte ou, mais provavelmente, é sinal de que a tempestade foi adiada por mais uma rodada de intervenção monetária. Os juros altos que iam quebrar as construtoras não quebraram porque o Fed sinalizou cortes, afrouxou o discurso, e o mercado de capitais abriu a torneira de novo. O trimestre foi bom porque a festa não acabou, não porque a empresa seja extraordinária.
Há ainda a dimensão brasileira que ninguém comenta, e que deveria interessar a qualquer um que leia esta página. Enquanto casas americanas de classe média são vendidas por quatrocentos, quinhentos mil dólares em subúrbios precificados por ficção, o brasileiro médio é convencido de que o Minha Casa Minha Vida é um programa de habitação popular e não uma operação de transferência de renda para as mesmas construtoras que depois listam ações e recebem relatórios elogiosos de analistas travestidos de jornalistas econômicos. É o mesmo enredo em escalas diferentes. Aqui o subsídio é explícito, lá é disfarçado de política monetária. Em ambos os casos, quem paga a conta é quem nunca vai morar na casa.
No fim, o que o relatório da Raymond James certifica não é a saúde da Taylor Morrison, é a saúde do arranjo. Enquanto o Fed existir como autoridade discricionária sobre o preço do dinheiro, enquanto houver agências federais comprando hipoteca ruim disfarçada de ativo seguro, vai haver construtora "resiliente" e analista reiterando rating. No dia em que tudo isso for testado por um custo de capital genuíno, sem rede de proteção estatal, vamos descobrir quantas dessas empresas eram negócio e quantas eram apenas terminações nervosas de uma bolha protegida. Até lá, seguem os relatórios, seguem os bônus, e segue a ilusão de que isto que chamam de mercado é mercado.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.