O RBC Capital subiu o preço-alvo da Goosehead Insurance alegando que as capacidades digitais da companhia justificam o otimismo, e a notícia, aparentemente trivial, esconde uma lição que nenhum curso de MBA ensina direito. A Goosehead é uma corretora de seguros americana que resolveu fazer o que corretora de seguros deveria fazer desde o primeiro dia: cotar rápido, comparar apólices de verdade, entregar contrato digital e não obrigar o cliente a ligar três vezes para um call center que atende em Manila. O resultado é que o mercado, esse velho ajuntador de sinais dispersos entre milhões de cabeças, enxergou e precificou. Não foi o CEO que decretou valor. Foram milhões de decisões individuais de clientes, investidores e concorrentes convergindo em um número.
Olha, é curioso como o analista de banco gasta páginas para descrever o que qualquer dona de casa entende em trinta segundos: quem atende melhor cresce, quem enrola some. A diferença é que a dona de casa não precisa de planilha em inglês para chegar à conclusão. O preço da ação não é mágica, não é manipulação da Bolsa, não é capricho de Wall Street. É a soma de expectativas sobre fluxo de caixa futuro, e fluxo de caixa futuro depende de uma coisa só no varejo de seguros: o cliente voltar. Cliente volta quando foi bem servido. Cliente foi bem servido quando a empresa investiu em tecnologia que funciona. Silogismo elementar, e ainda assim boa parte do setor brasileiro trata como revelação esotérica.
Quer dizer, enquanto a Goosehead automatiza cotação e entrega apólice em minutos, a corretora média no Brasil ainda depende de um gerente que manda PDF por WhatsApp, com logomarca distorcida, pedindo para o cliente assinar digitalizado e devolver. E isso não acontece porque o brasileiro é tecnicamente incapaz. Acontece porque o arranjo regulatório brasileiro protege quem já está dentro e pune quem tenta entrar com algo novo. A SUSEP, as exigências de registro, as barreiras cartoriais, tudo isso compõe uma cerca que o agente estabelecido adora porque mantém a concorrência longe. O consumidor paga a conta em prêmios mais caros e serviço pior, sem nunca ver o elo entre a burocracia que aplaude e o preço que xinga.
Me diz uma coisa, por que o investidor americano precifica inovação e o brasileiro precifica alvará? Porque o mercado, quando é livre, recompensa quem serve. Quando é capturado, recompensa quem tem amigos no ministério. A Goosehead está ganhando porque opera num ambiente onde ainda é possível vencer sendo melhor, e não sendo mais bem conectado. Cada dólar a mais no preço-alvo é um voto silencioso de que a concorrência funcionou, de que o consumidor escolheu, de que a tecnologia entregou o que prometeu. É o que deveria acontecer em todo setor, em todo país, se o legislador tivesse a humildade de reconhecer que não sabe alocar capital melhor do que milhões de pessoas decidindo com o próprio bolso.
E há o detalhe invisível, aquele que o release do banco não menciona. Para cada Goosehead que sobe, existe uma corretora tradicional que está perdendo market share, demitindo corretor que aprendeu a vender no grito, fechando agência física que virou elefante branco. Isso se chama destruição criadora, e é feio de perto, mas é exatamente o mecanismo que gera riqueza no agregado. Ninguém vê o empreendedor que quebrou por não se adaptar. Todo mundo vê o bônus do CEO da empresa que venceu. O mercado funciona assim, brutal e honesto, ao contrário do arranjo estatal que socializa prejuízo e privatiza cargo comissionado. A lição da Goosehead, no fundo, não é sobre seguros. É sobre o que acontece quando se deixa o mercado trabalhar.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.