A RBC Capital acaba de elevar o preço-alvo das ações da Lam Research, citando demanda robusta por equipamentos de fabricação de chips, margens generosas e um ciclo de investimentos que, segundo os analistas, ainda tem muita gasolina no tanque. A mensagem que chega ao investidor é simples e sedutora, comprem porque a inteligência artificial precisa de silício e alguém precisa fabricar as máquinas que fabricam o silício. Até aí, tudo verdade. O detalhe incômodo, aquele que o relatório não destaca com a mesma empolgação, é que boa parte desse ciclo não nasceu do mercado livre, nasceu do toco da caneta de Washington.

Me diz uma coisa, por que justamente agora as fabricantes de equipamentos de semicondutores estão nadando em pedidos? Porque desde o CHIPS Act americano, somado aos subsídios europeus, japoneses e coreanos, os governos do mundo inteiro decidiram que o capitalismo não podia mais ser confiado para alocar capital em fábricas de chips. Era preciso despejar centenas de bilhões de dólares de contribuintes em players escolhidos a dedo, sob pretexto de segurança nacional, autonomia tecnológica e mais um punhado de palavras bonitas que sempre aparecem quando o dinheiro público migra para o bolso privado. O resultado previsível, encomendas gigantescas para quem vende as ferramentas, e preço-alvo subindo nos relatórios.

Isto não é crítica à Lam Research, empresa competentíssima, nem ao investidor que quer cavalgar a onda. É descrição fria do que está acontecendo. Quando o governo decide que um setor deve crescer, o setor cresce, mas a conta aparece depois, disfarçada em inflação, em dívida pública, em impostos que sugam recursos de outras áreas produtivas que teriam surgido naturalmente se o dinheiro tivesse ficado no bolso de quem o produziu. O emprego na fábrica subsidiada, todos veem e celebram. As empresas que nunca nasceram porque o capital foi desviado, ninguém filma, ninguém entrevista, ninguém lamenta.

Há ainda o problema do ciclo. Capital barato e subsídio farto produzem expansão que parece saudável enquanto a música toca. Fabricantes de equipamentos enchem carteiras de pedidos, fundições anunciam novas plantas, analistas elevam preços-alvo, revistas celebram a renascença industrial. Só que preço não mente para sempre. Quando a demanda real não acompanha a capacidade instalada artificialmente, vem a ressaca, e aí a mesma imprensa que aplaudia pergunta, em tom de indignação, como foi possível que ninguém tenha visto o excesso chegando. Viram, avisaram, foram ignorados, porque avisar contra a festa patrocinada é sempre impopular.

Olha, o Brasil observa tudo isso de camarote e continua tentando reinventar a roda com sua própria política industrial de chips, aquele programa que promete, em algum momento deste século ou do próximo, colocar o país no mapa dos semicondutores. Enquanto isso, o capital nacional é confiscado para bancar aventuras estatais que nunca chegam, e o investidor brasileiro, sensato, compra ação de Lam Research via BDR, financiando indiretamente a política industrial americana, que pelo menos entrega fábrica de verdade. É a ironia cruel do nosso atraso, o dinheiro do brasileiro produtivo financia o contribuinte americano, que financia a Lam, que vende máquina para a TSMC, que vende chip para todo mundo, inclusive para o governo brasileiro, que compra com imposto do mesmo investidor que começou a história.

A alta no preço-alvo é real, a demanda é real, o lucro é real. O que não é real é a ideia de que estamos diante de um ciclo puramente orgânico de inovação premiada pelo mercado. Estamos diante de um ciclo híbrido, parte tecnologia genuína, parte engenharia política, em que o governo escolheu vencedores e os vencedores, agora, entregam os números que justificam a escolha. Enquanto houver subsídio, a festa continua. Quando o subsídio acabar, ou quando a realidade cobrar a fatura em forma de capacidade ociosa, veremos quem estava nadando de sunga e quem estava nadando pelado. Dinheiro do contribuinte aquece ação na bolsa até o dia em que a conta chega, e a conta sempre chega.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.