O RBC Capital iniciou cobertura da Avantor com preço-alvo de nove dólares e o noticiário financeiro tratou o evento como se fosse veredicto de oráculo. Quer dizer, um banco enorme, com mesa de operações, área de banking, relacionamento institucional e clientes preferenciais, resolve, do nada, dizer ao mundo que uma fornecedora de insumos para laboratórios vale exatamente nove dólares por ação. E o varejo, esse sujeito que ainda acredita em Papai Noel corporativo, lê o título no Investing, acha que está recebendo informação privilegiada e corre para comprar achando que está na frente de alguém.
Olha, relatório de cobertura inicial não é descoberta científica, é peça de marketing. O analista não acordou numa manhã iluminada, abriu o balanço da Avantor e teve uma epifania sobre fluxo de caixa descontado. Existe um ciclo industrial por trás disso, e esse ciclo costuma envolver mesa institucional acumulando posição antes, área de banking sondando mandato de assessoria, clientes grandes recebendo o call por telefone com semanas de antecedência, e só no final, depois que o andar de cima já se serviu do bufê, o relatório público é despachado para o varejo entrar comprando aquilo que os profissionais querem distribuir.
A Avantor, convém lembrar, é uma empresa que vinha sendo socada no chão pelo próprio mercado, com a ação derretendo em meio a margens pressionadas, dívida pesada herdada de aquisições alavancadas e demanda mais fraca em segmentos biofarmacêuticos. De repente, com a ação no fundo do poço, aparece o preço-alvo generoso de nove dólares. Notável a coincidência. É como aquele vizinho que só lembra de você quando precisa pegar a furadeira emprestada, só que aqui a furadeira é a sua liquidez.
Me diz uma coisa, quem paga essa conta no fim? O sujeito que abriu home broker depois da pandemia, leu três livros sobre value investing, achou que entendeu de planilha e agora está convencido de que descobriu uma pechincha porque um banco gringo confirmou a tese dele. Esse sujeito é o combustível do andar de cima. Toda vez que um relatório de cobertura inicial sai com preço-alvo polpudo acima do preço corrente, alguém do outro lado está aliviando posição comprada, e geralmente quem alivia não é o motorista de Uber que abriu conta na corretora ano passado.
O ponto mais sério, porém, é estrutural. O mercado de capitais americano, que deveria ser o templo da alocação eficiente de poupança, virou um cassino regulado em que a casa enxerga as cartas dos outros e ainda cobra para distribuir o baralho. Preço-alvo é opinião disfarçada de número, número disfarçado de ciência, ciência disfarçada de neutralidade. Existem três camadas de teatro entre o investidor de varejo e o que está acontecendo de verdade na tesouraria do banco que emitiu o relatório, e a maioria dos leitores acha que está vendo o palco quando está, no máximo, vendo a cortina.
Comprar Avantor a nove dólares pode até dar certo, talvez a tese se confirme, talvez o ciclo vire, talvez o mundo descubra que precisa de mais pipetas e reagentes. Mas que ninguém venha bancar o surpreso quando descobrir que o melhor momento para comprar era antes do relatório sair, e o pior momento é exatamente quando o título da notícia chega ao seu celular. No mercado financeiro, informação pública é, por definição, informação atrasada, e quem age sobre informação atrasada está pagando para os que agiram sobre informação adiantada. O resto é literatura.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.