A RBC Capital Markets resolveu, mais uma vez, manter a classificação positiva sobre as ações da Coty, a fabricante de cosméticos e perfumes que carrega marcas como CoverGirl, Rimmel e a licença da Gucci. O argumento, em letras garrafais nos terminais, é o de sempre, a tal "avaliação atrativa". Quer dizer, o papel caiu, então agora está barato, então agora é hora de comprar. Genial. Pagam analista sênior em Toronto para chegar a uma conclusão que qualquer feirante de Madureira tira olhando a banca de tomate no fim do sábado.

Olha, o ritual é conhecido e merece ser desmontado com calma. Banco de investimento publica relatório, relatório vira manchete, manchete move preço, preço justifica novo relatório. É a serpente comendo o próprio rabo, e o investidor de varejo entra no meio achando que está participando de uma análise técnica quando na verdade está alimentando uma máquina de geração de comissão. O que se vê é a recomendação de compra. O que não se vê é o banco de investimento que provavelmente tem mandato de corretagem, posição em derivativos, ou relação de research patrocinado com a própria empresa avaliada. Siga o dinheiro e o entusiasmo do relatório encontra explicação imediata.

Me diz uma coisa, alguém ainda lembra que a Coty saiu da bolsa pelas mãos de um conglomerado familiar alemão, voltou alavancada até o pescoço com a aquisição da divisão de beleza da Procter and Gamble em 2016, queimou bilhões em ágio, demitiu CEO atrás de CEO, e só sobreviveu porque a KKR entrou injetando capital em troca de ações preferenciais com dividendo gordo? Avaliação atrativa para quem? Para o acionista pulverizado que segura o papel desde 2014 e ainda está no prejuízo, ou para o fundo de private equity que precisa rotacionar a posição antes do fim do ciclo do veículo?

O ponto incômodo, que nenhum relatório do sell side coloca em negrito, é que o setor de beleza vive uma transformação brutal. As marcas tradicionais, que dominaram o século vinte com publicidade massiva e gôndola de farmácia, perdem espaço para indies de Instagram, para a Sephora vendendo private label, para a Shein despejando batom a três dólares no mundo inteiro. O valor de marca, que era o ativo intangível mais precioso desses conglomerados, está sendo erodido por adolescentes de Tiktok que constroem império em dezoito meses sem pagar um centavo de royalty para o licenciamento da Gucci. O preço da ação reflete isso. E nenhuma planilha de fluxo de caixa descontado vai trazer de volta o monopólio cultural que a propaganda televisiva exerceu sobre três gerações de consumidores.

Há ainda o detalhe macroeconômico que ninguém quer comentar em voz alta. Quando o banco central americano enfim começar a cortar juros de verdade, e não nessa dança de meia-marcha que o Powell tem feito para não constranger ninguém em ano eleitoral, a tese de "ações descontadas" muda de figura. Mas, e aqui está o truque, ela muda para todo mundo, não apenas para a Coty. Comprar uma fabricante de batom alavancada porque o juro vai cair é o mesmo que comprar fazenda na lua porque o foguete da SpaceX vai decolar. Pode até dar certo, mas a relação entre causa próxima e efeito desejado é puramente devocional.

No fim, o que sobra é o de sempre. Um relatório de banco diz que a ação está barata, repórteres reproduzem, plataformas amplificam, o pequeno investidor compra, o grande institucional vende para ele, e quando a maré virar a culpa será do "cenário macro adverso". A liberdade de errar com o próprio dinheiro é sagrada e deve ser preservada. Mas que ninguém confunda a chancela de um analista terceirizado com profecia infalível. O mercado é cruel justamente porque é livre, e nenhum carimbo de outperform substitui a velha e desprezada virtude de pensar com a própria cabeça.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.