Olha o que aconteceu. O RBC Capital, uma das casas mais influentes do mercado norte-americano, rebaixou a classificação do GitLab e declarou, sem rodeios, que as oportunidades de alta estão limitadas. O papel, que já apanhou bastante desde as máximas da era do dinheiro fácil, agora recebe o carimbo oficial de que a dança acabou. E repare na coreografia: primeiro inflam o múltiplo, depois sobem o preço-alvo, depois revisam para baixo, depois rebaixam. É o ciclo inteiro da embriaguez financeira condensado em um único nome de tecnologia.
Ninguém na imprensa especializada vai dizer o óbvio, então vamos dizer aqui. O problema do GitLab não é o GitLab. O problema é que durante uma década inteira o Federal Reserve manteve juros artificialmente esmagados, jorrou liquidez no sistema e produziu uma geração inteira de empresas de software cujo valuation só fazia sentido num mundo onde o capital era quase de graça. Quando o custo do dinheiro volta ao território do razoável, a maré baixa e a gente descobre quem estava nadando pelado. O analista de banco, coitado, chega sempre atrasado nessa constatação porque o emprego dele depende de vender otimismo enquanto o otimismo paga comissão.
Quer dizer, o rebaixamento é honesto dentro do jogo, mas observe o que ele não diz. Não diz que o fluxo de caixa livre da empresa precisa justificar o preço da ação sem depender de expansão perpétua de receita em ritmo de bolha. Não diz que a competição com Microsoft, via GitHub, virou um duelo em que o lado com bolso infinito e produto integrado ao ecossistema tem vantagem estrutural. Não diz que boa parte do crescimento de empresas de DevOps foi financiada por clientes que também viviam do mesmo dinheiro barato, e que quando o cliente aperta o cinto, o fornecedor sente no pescoço. Isso tudo é o que não se vê no relatório, e é justamente o que importa.
Me diz uma coisa. Quantas vezes o sujeito precisa ver o mesmo filme para aprender o enredo? Empresa de tecnologia abre capital no topo do ciclo, queima caixa feito lenha molhada, promete lucratividade para um futuro sempre adiado, e a mesa de análise do banco projeta crescimento em linha reta até o infinito. Quando a realidade chega com o boleto, o relatório técnico vira poesia defensiva. Rebaixa-se a nota, corta-se o preço-alvo, e pronto, o analista preserva a reputação enquanto o investidor de varejo ficou com o prejuízo na carteira. É a terceirização silenciosa do risco, feita em papel timbrado e com gráficos bonitos.
O fundo da questão é outro e é incômodo. Preço só significa alguma coisa num ambiente onde a moeda não é manipulada. Quando o banco central transforma a taxa de juros em instrumento político, distorce toda a estrutura de capital da economia e faz com que recursos escassos sejam alocados em projetos que, em condições normais, jamais teriam saído do papel. GitLab não é vítima nem vilão dessa história; é sintoma. O remédio não virá de nota técnica da RBC, virá do retorno à disciplina monetária que o Ocidente abandonou em 2008 e nunca mais teve coragem de retomar de verdade.
Enquanto isso, o espetáculo continua. Sobe-se o que não devia subir, desce-se o que não devia ter subido, e no meio do caminho o poupador honesto paga a conta via inflação, imposto e corrosão de patrimônio. Rebaixamento de rating em papel de tecnologia é a ponta visível do iceberg; o iceberg inteiro é um sistema monetário que premia a especulação e pune a prudência. Quando a próxima onda de cortes de recomendação chegar, e vai chegar, lembre-se que o problema nunca esteve no código-fonte da empresa. Estava na impressora.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.