A notícia é curta, quase burocrática. A Reabold Resources comunicou ao mercado o começo das obras preparatórias em West Newton, um dos maiores campos de gás onshore descobertos na Grã-Bretanha nas últimas décadas, situado em Yorkshire. Nada de espetacular no anúncio em si; tratores, licenças, cronogramas, o vocabulário monótono de quem tira hidrocarboneto do chão. O que é espetacular é o contexto. A mesma ilha que passou os últimos quinze anos jurando que ia se aquecer com moinho de vento e boa vontade agora corre para tapar buracos energéticos com o gás que fingiu não precisar.

Olha, é o tipo de contradição que só sobrevive porque quase ninguém tem estômago para dizê-la em voz alta. A Europa fechou usinas nucleares perfeitamente funcionais na Alemanha, sabotou a exploração doméstica no Reino Unido, embargou a Rússia, importou o mesmo gás russo por triangulação indiana, comprou GNL americano a preço de champanhe e depois cobrou do consumidor uma conta de luz que triplicou. E o pobre do trabalhador de Manchester, que continua precisando aquecer a casa no inverno, é convidado a se sentir moralmente superior enquanto vai à falência pagando a fatura da virtude alheia.

Siga o dinheiro e a história fica mais clara. Cada libra gasta em subsídio de energia renovável passou pela mão de alguém, geralmente o mesmo alguém que financia campanha, que patrocina think tank, que abastece ONG com nome bonito e balancete gordo. O consumidor viu a conta subir, o contribuinte viu o imposto crescer, e o operador de moinho viu o cheque público chegar pontualmente. Enquanto isso, projetos como West Newton eram travados por audiências públicas intermináveis, ambientalistas profissionais e uma máquina regulatória que transformou permissão em rito de passagem quase impossível. Agora que a realidade bateu à porta com a fatura, alguém precisa cavar. E cavar rápido.

É a velha lição que ninguém quis ouvir. Preço não é opinião, é informação. Quando o mercado sinalizava, ano após ano, que o gás era escasso, caro e estratégico, o planejador central respondia com meta climática para 2050, subsídio para painel solar chinês e desprezo pelo engenheiro que insistia em falar de carga base. A energia, no entanto, obedece à física, não à ideologia. E quando a física cobra, cobra em euro, em libra, em desemprego industrial, em fábrica alemã fechando, em siderúrgica britânica indo para a China. O que se via era o painel solar reluzente na foto; o que não se via era a indústria pesada emigrando em silêncio.

Repare que a operação de West Newton não é um triunfo do capitalismo, é uma admissão envergonhada de derrota do intervencionismo. Se o governo britânico tivesse deixado o setor em paz há vinte anos, o gás doméstico já estaria fluindo, a conta do consumidor seria menor, a dependência de Moscou e de Doha seria menor, e ninguém precisaria fingir que uma perfuração é sinônimo de crise ambiental quando ontem mesmo o mesmo governo comprava molécula equivalente do outro lado do planeta com o dobro de emissão de transporte. A hipocrisia energética europeia é uma obra-prima do autoengano coletivo, financiada com dinheiro que pertence a quem trabalha e entregue a quem discursa.

No fim, West Newton é um pequeno campo de gás no norte da Inglaterra e uma grande metáfora do nosso tempo. Uma civilização que gastou uma década inteira envergonhada da própria fonte de energia agora precisa cavá-la às pressas, torcendo para que ninguém repare. A natureza, essa velha teimosa, não aceita decreto. E o consumidor, esse mudo permanente, continua pagando a conta enquanto o burocrata assina o próximo memorando de sustentabilidade. Gás não tem ideologia. Fatura, muito menos.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.