A Realty Income, aquela queridinha do dividendo mensal que virou fetiche de aposentado americano, acaba de registrar mais um programa de emissão contínua de ações no valor de US$ 150 milhões. Em bom português, sem o verniz do mercado, isso se chama vender ação aos pouquinhos no balcão da bolsa, um pedacinho aqui, outro ali, sempre que o preço estiver razoável e o gestor precisar de dinheiro novo para sustentar a engrenagem. ATM, na sigla em inglês, é literalmente caixa eletrônico, e a metáfora não poderia ser mais honesta: a empresa abre uma torneira de papel e despeja na mesa.
Olha, o problema não é a operação ser ilegal, porque não é, e nem mesmo ser pouco ortodoxa, porque virou padrão entre os REITs americanos. O problema é o que ela revela sobre o modelo de negócio. Um REIT é, por construção legal, obrigado a distribuir noventa por cento do lucro tributável aos cotistas. Quer dizer, ele não retém capital para reinvestir, então cada novo prédio comprado, cada novo contrato de aluguel triple net assinado, precisa de dinheiro vindo de fora. E dinheiro de fora, quando o juro americano ainda morde, vem em duas formas: dívida cara ou diluição silenciosa. A Realty Income escolheu a segunda, que dói menos no balanço e mais no bolso de quem já está dentro.
Repare na coreografia. A empresa anuncia o programa, a mídia especializada repete o release com aquele tom neutro de quem está só informando, e o pequeno investidor que acompanha o famoso "Monthly Dividend Company" fica com a impressão de que houve um movimento estratégico, sofisticado, de gente grande. Não houve. Houve uma decisão de transferir parte do valor das ações já existentes para financiar o crescimento prometido nos próximos relatórios trimestrais. Cada nova ação emitida é um sócio novo entrando na sociedade sem que os antigos tenham sido consultados, e o lucro por cota, aquele número que sustenta o dividendo, passa a ser dividido por mais cabeças. Isso tem nome técnico, mas o nome popular é mais preciso: é o velho truque de cortar a pizza em fatias menores e jurar que continua sendo a mesma pizza.
Há ainda a questão de fundo, mais incômoda. Toda essa engenharia financeira só faz sentido num ambiente onde o crédito barato acostumou empresas inteiras a crescerem por aquisição em vez de eficiência. Décadas de juros artificialmente comprimidos pelas autoridades monetárias americanas criaram um ecossistema inteiro de companhias que não sabem mais operar sem capital novo entrando todo mês. O REIT é o exemplo perfeito desse vício: ele precisa comprar imóvel para crescer, precisa crescer para sustentar dividendo, precisa de dividendo para justificar o múltiplo, e precisa do múltiplo alto para que a próxima rodada de ATM dilua o mínimo possível. É uma roda viva que funciona enquanto a música toca.
E quando a música parar, e ela sempre para, sobra o investidor que comprou a história do "dividendo mensal eterno" segurando uma carteira cheia de ações que valem proporcionalmente menos do que valiam quando ele entrou. Não há nada de errado em uma empresa captar recursos no mercado, esse é justamente o papel da bolsa. O que há de errado é a assimetria de informação entre quem entende a mecânica e quem só vê o cheque do dividendo cair na conta todo dia primeiro. Os primeiros sabem que estão vendendo participação. Os segundos acham que estão recebendo lucro. Spoiler: parte do que eles recebem é simplesmente o dinheiro do sujeito que comprou a ação ontem.
Cento e cinquenta milhões de dólares parece pouco para uma empresa do tamanho da Realty Income, e é. Mas o tamanho do programa importa menos que o sinal que ele emite. É a confirmação de que o crescimento orgânico ficou caro demais, de que a dívida nova machuca o rating, e de que o caminho mais confortável é o de sempre: imprimir papel, vender bonito e contar com a fé inabalável do varejo americano no mito do passive income. A festa continua, o bar segue aberto, e a conta, como sempre, fica para quem chegou por último.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.