Queda de 24% nos registros da Tesla na Califórnia. Leia de novo, devagar. O estado que transformou o carro elétrico em sacramento político, que subsidiou, regulou, incentivou, proibiu concorrente, obrigou frota, penalizou motor a combustão e praticamente transformou Elon Musk em santo padroeiro local, está virando as costas para o produto. E não está migrando para o futuro radiante prometido no PowerPoint do governador, está migrando para o híbrido, justamente o carro que os iluminados decretaram ser tecnologia de transição, meia-boca, atraso civilizacional. O mercado, essa coisa velha e chata que insiste em existir apesar de todas as tentativas de aboli-lo, deu o seu veredicto. E o veredicto é simples: o consumidor não compra narrativa, compra carro.

Olha, quando se anuncia durante uma década inteira que o futuro é elétrico puro, que em 2035 não se vende mais nada movido a gasolina, que quem compra híbrido é retrógrado, e aí os números do próprio estado modelo mostram que a plebe está escolhendo exatamente o produto proibido no decreto, algo está muito errado na cabeça de quem decreta. A arrogância de achar que meia dúzia de gabinetes consegue ditar qual tecnologia vai vencer ignora o óbvio: ninguém, absolutamente ninguém, possui o conhecimento disperso entre milhões de consumidores que pesam preço, autonomia, ponto de recarga, tempo de viagem, custo de seguro, revenda, confiabilidade e aquele detalhe incômodo de precisar chegar em casa no frio sem rezar para a bateria. O planejador vê planilha, o consumidor vive a vida.

Me diz uma coisa, se o elétrico era tão maravilhoso a ponto de justificar bilhões em subsídio federal, isenção de ICMS, acesso a faixas exclusivas, créditos de carbono transformados em ativo financeiro e uma capitalização bolsista que durante anos valeu mais que todas as montadoras tradicionais somadas, por que precisa de tudo isso? Produto bom se vende sozinho. Quando você precisa empurrar algo com a coronha do Estado, o problema nunca é o consumidor ignorante, é o produto imaturo ou o preço acima do que o mercado aceita pagar sem coerção. Cada real de subsídio ao elétrico foi tirado do bolso de alguém que preferiria o híbrido, o flex, o usado, o transporte público ou simplesmente o jantar da semana. O que se viu foi o posto de carregamento inaugurado com fita cortada. O que não se viu foram as cadeias produtivas sufocadas, os empregos evaporados na indústria tradicional e o consumidor obrigado a financiar escolha que não era sua.

E repare na ironia deliciosa: a queda acontece justamente no feudo ideológico da marca, não em algum rincão conservador do Texas profundo. Na Califórnia, terra do progressismo auto declarado, dos decretos ambientais mais agressivos do planeta, o cliente está votando com a carteira contra o próprio templo. Parte é fadiga política da figura do dono, parte é competição chinesa que aprendeu a copiar mais rápido que os advogados ocidentais registram patente, parte é o envelhecimento de uma linha de produtos que virou commodity antes de virar lucro sustentável. Mas a parte mais interessante, aquela que nenhum analista de banco vai escrever, é esta: o híbrido venceu porque oferece exatamente aquilo que o mercado sempre quis e o burocrata nunca entendeu, solução prática para problema real, sem ideologia no tanque.

Há também a história do dinheiro, que nunca mente. A Tesla foi, durante anos, menos uma montadora e mais uma máquina de vender créditos regulatórios criados artificialmente pelo próprio Estado para outras montadoras cumprirem cotas impostas pelo próprio Estado. Quer dizer, o governo inventa a escassez, inventa a regra, inventa o ativo, entrega o monopólio do ativo a um amigo do momento, e aí chama isso de livre mercado da inovação. É o capitalismo de compadrio vestido de ambientalismo, com verniz de Silicon Valley e trilha sonora de foguete. Quando a regra muda, quando outras montadoras aprendem a jogar o jogo, quando o subsídio fica escasso no orçamento, o castelo de cartas começa a balançar. E balança primeiro onde o castelo foi construído.

Os decretos continuarão, as metas continuarão, os discursos sobre neutralidade de carbono continuarão, e mais um pacote de incentivos provavelmente está sendo redigido neste exato momento por algum assessor que nunca trocou um pneu na vida. Só que a realidade tem uma mania irritante de sempre vencer no final. Pode se decretar o fim da gasolina, não se decreta a física da bateria, o custo do lítio, a malha elétrica sobrecarregada, o bolso do eleitor nem a inteligência de quem compara dois carros na concessionária. Quando o híbrido supera o elétrico puro no estado que transformou o elétrico puro em religião oficial, a lição é cristalina para quem quer enxergar: o mercado não precisa de planejador, precisa apenas que o planejador saia da frente.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.