A imprensa econômica, sempre solícita aos poderosos, dedica espaço nobre para nos contar quais são os três alimentos anti-inflamatórios que o Rei Charles consome religiosamente. Salmão selvagem, vegetais orgânicos colhidos nos jardins de Highgrove, azeite extra virgem prensado a frio. Tudo muito charmoso, tudo muito chique, tudo financiado por um arranjo institucional que sobrevive há mil anos extraindo recursos de quem trabalha para sustentar quem nasceu com coroa na cabeça. A reportagem trata o assunto como se fosse coluna de saúde, mas é coluna de economia política disfarçada, e a parte interessante é justamente o que não se vê.

Vamos ao que se vê primeiro. O Rei come bem, dorme bem, vive muito. A dieta dele custa por refeição mais do que um operário inglês gasta em comida durante uma semana inteira. Os vegetais vêm de propriedades pertencentes ao Ducado da Cornualha, um portfólio imobiliário avaliado em mais de um bilhão de libras que pertence pessoalmente ao monarca por herança feudal e que, convenientemente, é isento de imposto corporativo. O salmão selvagem vem da Escócia, de águas onde a pesca comercial está estrangulada por regulação ambiental que o próprio Rei advoga publicamente. O azeite vem da Itália, importado sem as taxas que sufocam o pequeno produtor britânico que ousa concorrer com produtos protegidos pela aristocracia agrícola europeia.

Agora o que não se vê. Enquanto o monarca exibe sua longevidade orgânica, a inflação alimentar no Reino Unido rodou acima de dois dígitos durante a maior parte da última década, corroendo o poder de compra das famílias trabalhadoras que pagam o imposto que sustenta a Casa Real através do Sovereign Grant. Cada libra impressa pelo Banco da Inglaterra para financiar a gastança parlamentar é uma libra a menos no bolso do aposentado de Liverpool que precisa escolher entre aquecer a casa ou comprar peixe. Mas o peixe do Rei nunca falta, porque o Rei não compra peixe com libra desvalorizada, ele recebe peixe como tributo de uma estrutura que confunde tradição com privilégio hereditário extraído à força.

A parte verdadeiramente cínica é o ativismo ambiental do monarca, que adora pregar contra o consumo de carne industrial e a favor de agricultura regenerativa, sabendo que sua audiência cativa não tem condição de adotar nenhuma dessas práticas sem empobrecer ainda mais. É a velha tirania exercida para o bem das vítimas, aquela que nunca para porque a consciência de quem oprime aprova. O súdito deve comer menos, viajar menos, consumir menos, em nome do planeta. O Rei, claro, viaja em jato particular para conferências climáticas onde discursa sobre sustentabilidade enquanto come salmão pescado a três mil quilômetros de distância.

Existe uma lição econômica fundamental escondida nessa coluna gastronômica que a InfoMoney não conseguiu enxergar. A longevidade do Rei não é fruto de sabedoria nutricional acessível ao povo, é fruto de uma engenharia institucional milenar que transfere riqueza de baixo para cima e devolve em forma de espetáculo midiático sobre dietas e jardins. Quando a imprensa transforma esse arranjo em conteúdo aspiracional, está cumprindo seu papel histórico de legitimar o privilégio através do encantamento. O leitor termina o texto querendo comer salmão selvagem em vez de querer entender por que ele não pode pagar pelo salmão selvagem.

A verdade nutricional é simples e cabe em uma frase. Comer comida de verdade, dormir bem, mover o corpo, evitar açúcar industrializado. Isso qualquer camponês medieval sabia sem precisar de coluna de jornal. A diferença entre o Rei e você não é o conhecimento sobre ômega-3, é a conta bancária financiada por mil anos de tributo compulsório. Enquanto durar a impressora monetária do Banco Central e durar o Sovereign Grant, durará a longevidade real, paga em parcelas invisíveis pelo súdito que recebe como compensação o direito de ler matérias sobre os hábitos alimentares de quem o explora.

Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.