Dezesseis bilhões de dólares. É a cifra que a Related Digital acaba de garantir para tocar o que está sendo vendido como um dos maiores projetos de data center da história, hospedando a infraestrutura de nuvem da Oracle. A manchete vem embrulhada como conto de fadas do capitalismo, empreendedores visionários, capital privado, futuro digital. Mas quem leu duas vezes a letra miúda da última década sabe que financiamento dessa magnitude não brota de poupança real acumulada. Brota de impressora, de incentivo fiscal estadual, de bonds emitidos a juros que só fazem sentido num mundo em que o banco central transformou o custo do dinheiro numa ficção contábil.
Quer dizer, ninguém poupou dezesseis bilhões pingando moedas no cofre. Esse dinheiro foi fabricado, expandido via crédito bancário, alavancado em camadas sobre camadas de promessas futuras de retorno, e despejado num setor que virou o queridinho do momento porque a sigla IA dispensa qualquer due diligence séria. É o mesmo padrão das ferrovias americanas no século dezenove, da bolha das pontocom em 2000, do imobiliário em 2008. Capital artificialmente barato encontra narrativa irresistível, e de repente todo mundo está construindo a mesma coisa ao mesmo tempo, no mesmo lugar, para os mesmos clientes hipotéticos.
Agora siga o dinheiro. Quem ganha com um projeto de dezesseis bilhões antes mesmo de o primeiro servidor ser ligado? Os bancos que estruturam a dívida e cobram fees gordas. Os fundos que reciclam o papel no mercado secundário. Os escritórios de advocacia que cobram por hora para redigir contratos de mil páginas. Os governos locais que prometem isenção de imposto, terra subsidiada, energia barata em troca de uma promessa de empregos que historicamente nunca se materializa na escala anunciada. O contribuinte do estado que abrigar essa obra vai pagar, em renúncia fiscal, parte da conta. Ele só não vai aparecer no comunicado oficial.
E há o detalhe técnico que ninguém quer encarar: data center consome energia como cidade média. Para alimentar essa fome, ou se constrói nova geração, e adivinhem quem subsidia, ou se canibaliza a rede existente, empurrando custo para o consumidor residencial via tarifa. A conta de luz do sujeito que mora a cinquenta quilômetros do empreendimento vai subir silenciosamente, e ele jamais vai conectar uma coisa à outra. É o que se vê, o data center reluzente, contra o que não se vê, o operário que paga mais caro pelo chuveiro elétrico para que a Oracle rode workloads de inteligência artificial generativa que talvez nem dêem o retorno prometido.
O mais cômico é o tom da cobertura. Investing, Bloomberg, Reuters, todos repetem o press release como se estivessem narrando descoberta da penicilina. Ninguém pergunta se há demanda real para tanto poder computacional, se a curva de adoção justifica o capex, se o retorno sobre investimento fecha numa planilha honesta sem trapacear na taxa de desconto. A imprensa econômica brasileira, então, traduz e republica com aquele entusiasmo provinciano de quem confunde notícia corporativa com jornalismo. Era para ser análise, virou boletim de relações com investidores.
O dia em que esse ciclo virar, e ele sempre vira, vamos ver os mesmos jornalistas perguntando atônitos como ninguém viu chegando. Viu sim. Quem queria ver, viu. O resto preferiu acreditar que dessa vez é diferente. Nunca é.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.