O homem que por anos controlou o aparato de inteligência do Estado brasileiro, que sabia tudo sobre todos e repassava isso seletivamente para quem lhe convinha, foi detido em abril de 2026 pelo Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos Estados Unidos. Não por espionagem, não por golpe, não por organização criminosa. Por imigração. Alexandre Ramagem, ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência durante o governo Bolsonaro, condenado pelo Supremo Tribunal Federal a dezesseis anos de prisão, encontrou seu fim temporário num guichê de burocracia federal americana. Existe algo quase tragicômico nisso, mas a tragédia fala mais alto que a comédia.

Para entender o que Ramagem representa, é preciso entender o que a ABIN deveria ser e o que ela se tornou. Uma agência de inteligência existe para defender o Estado de ameaças externas e internas, não para vigiar opositores políticos, construir dossiês sobre jornalistas e magistrados, e fornecer munição informacional para projetos de poder personalíssimo. O que a investigação revelou, e a condenação confirmou, é que a agência foi instrumentalizada como departamento privado de espionagem de um governo que não distinguia o interesse nacional do interesse do ocupante do Palácio. Quando o Estado usa seus próprios instrumentos de inteligência para fins eleitorais e políticos, ele não fortalece o poder, ele o corrompe até o tutano.

Mas Ramagem não foi apenas o homem da escuta e do dossiê. O documento batizado de "Punhal Verde e Amarelo" descreve algo de outra dimensão inteiramente: um plano para assassinar o presidente eleito, o vice-presidente e um ministro do Supremo Tribunal Federal. Não uma metáfora política, não uma figura de linguagem populista, não um protesto legítimo contra uma eleição contestada. Um plano com nomes, datas e método. Ramagem estava no centro desse arranjo não como figurante, mas como peça operacional. A condenação a dezesseis anos não foi capricho judicial; foi o reconhecimento de que ali houve tentativa real de destruir, pela força, o resultado de uma eleição.

Em setembro de 2025, com a condenação consumada e a prisão iminente, Ramagem escolheu a fuga. Instalou-se nos Estados Unidos onde, segundo relatos que circularam amplamente, chegou a pedir doações públicas para mobiliar sua nova casa. Pense bem nisso: o ex-chefe da inteligência nacional, personagem central de uma trama que envolveu os mais altos escalões do poder republicano brasileiro, pedindo dinheiro pela internet para comprar móveis. O contraste entre a ambição de quem conspira para assassinar presidentes e a realidade de quem mendiga cadeira e sofá num país estrangeiro tem uma eloquência que nenhum discurso político alcança.

Há uma lição velha e sistematicamente ignorada em tudo isso. Quando alguém usa o aparato do Estado, com toda sua capacidade coercitiva, para servir a um projeto político particular, está realizando um empréstimo que cobra juros altíssimos. O poder construído sem legitimidade não desaparece quando o governo muda; ele permanece, reorganizado sob outra mão. E quem montou o aparato para o chefe de ontem torna-se vulnerável ao aparato de hoje. Ramagem não caiu nas mãos do ICE porque o ICE era seu inimigo ideológico; caiu porque estava irregular, foragido e sem a proteção que só existe enquanto o poder que você serve continua de pé. O protetor desapareceu. A proteção evaporou junto.

Sobrou um homem que sabia tudo sobre todos, detido por uma agência que sabia apenas que ele não tinha os papéis em ordem. Essa é a medida exata do que resta quando o poder termina: nada, exceto a conta.

Com informações do Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.