Lá vamos nós de novo. Os mesmos rostos sérios nos mesmos estúdios de Washington explicando, com aquela gravidade de quem nunca ouviu um tiro de perto, por que desta vez é diferente, por que desta vez é necessário, por que desta vez o americano comum precisa abrir a carteira, mandar o filho e calar a boca. É sempre desta vez. Há cem anos é sempre desta vez. E o curioso é que, terminada a desta vez, vem a próxima vez, com argumentos quase idênticos, redigidos pelos mesmos think tanks financiados pelas mesmas empresas que vendem os mesmos mísseis.
Olha, antes de discutir geopolítica, vamos discutir contabilidade, que é menos nobre mas bem mais reveladora. Toda guerra moderna funciona como um gigantesco programa de transferência de renda. Tira do contribuinte, do poupador, do trabalhador que vê o dólar valer menos no supermercado, e entrega no balcão de um pequeno clube de fornecedores do Pentágono, lobistas de K Street, banqueiros que financiam a dívida emitida para pagar tudo aquilo, e políticos que passam pela porta giratória entre o Congresso e os conselhos das empresas que acabaram de subsidiar. Siga o dinheiro até o fim e o patriotismo vai se transformando, parágrafo a parágrafo, em planilha de comissionamento.
O que se vê é a bandeira tremulando, o discurso do presidente, a operação batizada com nome heroico. O que não se vê é a fábrica que não foi aberta porque o capital virou bomba, a escola que não foi construída porque o orçamento virou porta-aviões, o salário que minguou porque a impressora rodou para financiar o que imposto nenhum eleitor toparia pagar à vista. Guerra não enriquece país nenhum. Enriquece setores muito específicos dentro do país, às custas de todos os outros. Quem confunde uma coisa com a outra, ou é ingênuo, ou está na folha.
E há o custo que não aparece em planilha. Toda guerra externa importa, mais cedo ou mais tarde, instrumentos para uso interno. Vigilância em massa que começa contra o inimigo lá fora e termina lendo o e-mail do contribuinte aqui dentro. Agências de exceção que nasceram temporárias e completam oitenta anos de orçamento crescente. Poderes emergenciais que o Executivo arranca do Congresso na euforia patriótica e devolve nunca, porque devolver poder é coisa que governo não faz. O cidadão sai da guerra com menos liberdades do que entrou, e ninguém combinou isso com ele.
Me diz uma coisa, em que momento da história recente uma intervenção militar americana entregou aquilo que prometeu na coletiva inaugural? Vinte anos no Afeganistão para devolver o país aos mesmos que estavam lá em 2001. Iraque desestabilizado, Líbia em frangalhos, Síria virada em campo de provas para meia dúzia de potências, Vietnã, Coreia, e por aí vai a litania. O resultado prático é sempre o mesmo: trilhões evaporados, vidas trituradas, refugiados pelo mundo, e uma classe muito específica de gente saindo mais rica do que entrou. Se isso fosse uma empresa privada, os acionistas já teriam expulsado a diretoria há décadas. Como é monopólio estatal financiado por imposto compulsório, os mesmos seguem no cargo, agora explicando por que desta vez é diferente.
A verdade incômoda é que guerra perpétua não é acidente, é modelo de negócio. E enquanto o americano médio for convencido de que o problema está sempre do outro lado do oceano, jamais olhará para a sala de reuniões onde a fatura é assinada em seu nome. Paz não rende dividendo a quem vive de conflito, e por isso paz é tão raramente a opção em cima da mesa. O custo da guerra não é o que ela tira de você no campo de batalha. É o que ela tira de você todos os dias, em casa, sem precisar disparar um único tiro.
Com informações do Mises Institute. A análise e opinião são do O Algoz.