Há quatro anos morria um sujeito que, vestido de personagem caricato e assinando boletins financeiros com pseudônimo extravagante, dizia em duas linhas o que o jornalismo econômico americano não consegue dizer em duas décadas: o Federal Reserve é uma máquina de fabricar inflação, e inflação é roubo. Não metáfora. Roubo no sentido literal, técnico, jurídico do termo. Você guarda mil dólares hoje, o sujeito de gravata aperta um botão em Washington, e amanhã seus mil dólares compram oitocentos. A diferença foi para o bolso de alguém, e esse alguém nunca é você.
O personagem fazia graça com a tragédia, e por isso era levado a sério apenas pelos que entendiam que a graça era o único jeito honesto de tratar de algo tão obsceno. Quando uma instituição se dá ao luxo de imprimir trilhões de dólares do nada, comprar a própria dívida do governo que a criou, e ainda exigir reverência acadêmica enquanto faz isso, a única resposta digna é o riso. O riso de quem reconhece o golpe e se recusa a fingir solenidade diante do golpista. Os economistas de terno, esses, escrevem teses elegantes explicando por que desta vez é diferente, por que desta vez a impressora não vai gerar inflação, por que desta vez os técnicos têm tudo sob controle. Sempre é desta vez. Nunca é desta vez.
Siga o dinheiro e a história fica clara em cinco minutos. O Banco Central imprime, o Tesouro gasta, os bancos amigos recebem o crédito novo primeiro, compram ativos enquanto eles ainda estão baratos, e quando a onda de moeda nova finalmente chega no salário do pedreiro, do garçom, da costureira, o preço do feijão, do aluguel, da gasolina já subiu. Isso tem nome técnico, efeito Cantillon, e é estudado há trezentos anos. Não é teoria conspiratória, é aritmética. Quem está perto da torneira do dinheiro novo enriquece, quem está longe empobrece, e o jornalismo econômico chama isso de política monetária acomodatícia. Olha, o vocabulário é parte do disfarce.
O sujeito do pseudônimo entendia uma coisa que os doutores em macroeconomia fingem não entender: nenhuma sociedade próspera da história nasceu de uma impressora estatal. Riqueza vem de poupança, poupança vem de juros reais, juros reais vêm de capital escasso, e capital escasso pressupõe que ninguém pode falsificar moeda sem ir preso. Quando o Estado se reserva o monopólio da falsificação e ainda chama isso de banco central independente, está construindo o oposto exato de uma economia saudável. Está construindo uma estufa de bolhas, ciclo após ciclo, cada quebra resolvida com mais combustível para a próxima quebra maior. É um esquema de pirâmide com aval acadêmico.
E o que sobrou depois que ele morreu? Sobrou o silêncio. Os boletins viraram peças de colecionador, os herdeiros intelectuais do diagnóstico foram empurrados para as bordas do debate, e o lugar dele na imprensa financeira foi ocupado por colunistas que escrevem com nove parágrafos para dizer que a inflação é culpa do clima, da pandemia, da guerra na Ucrânia, do petróleo, dos coreanos, dos chineses, dos extraterrestres se preciso for, qualquer coisa menos da entidade que tem o monopólio legal de criar dinheiro do nada. É um espetáculo de prestidigitação tão grosseiro que só funciona porque a plateia decidiu não olhar.
A lição que ele deixou não é econômica, é moral. Quando uma instituição mente sistematicamente sobre o que faz, e quando a classe que deveria fiscalizá-la se beneficia do silêncio, o cidadão comum tem duas opções. Ou aceita o roubo travestido de técnica monetária e morre empobrecido fingindo que foi vítima de forças cósmicas, ou aprende a rir do golpe, nomeia o golpista, e organiza sua vida em torno de ativos que o falsificador não consegue alcançar. O personagem extravagante escolheu a segunda opção, e por isso morreu sendo lembrado. Os economistas premiados que cobriram o golpe morrerão sendo notas de rodapé.
Com informações da Mises Institute. A análise e opinião são do O Algoz.