Vamos ao fato concreto, sem floreio. O homem que comanda a empresa mais valiosa do planeta, a fabricante dos chips que sustentam a histeria mundial em torno de inteligência artificial, viu sua remuneração total cair 27%. Não porque o conselho descobriu virtude ascética, não porque um ministro decretou teto salarial, não porque uma multidão indignada invadiu a sede em Santa Clara. Caiu porque a fórmula de pagamento, ancorada em ações e metas, simplesmente se ajustou ao novo patamar. O preço subiu tanto, o pacote anterior valorizou tanto, que o conselho recalibrou. É isso. É só isso. E é exatamente por ser só isso que vale a coluna inteira.

Olha, num país sério, num mercado sério, a remuneração do executivo é problema de quem assina o cheque. Os donos da empresa, ou seja, os acionistas, contratam alguém para gerir patrimônio alheio e definem quanto vale o serviço. Se o sujeito entrega, ganha rios de dinheiro e ninguém tem o direito moral de reclamar, porque o dinheiro não saiu do seu bolso. Se não entrega, é demitido com a mesma frieza com que um restaurante demite um garçom que derrama vinho no cliente. O contrato é privado, o risco é privado, o lucro é privado, o prejuízo é privado. Nenhum burocrata precisa abrir planilha, nenhum jornalista precisa fazer cara de indignado, nenhum parlamentar precisa propor lei do salário máximo. O mercado, esse organismo que ninguém projetou e que funciona melhor que qualquer planejamento, já resolveu.

Compare isso, me diz uma coisa, com o teatro brasileiro do salário público. Aqui o juiz se autoaumenta por penduricalho, o procurador inventa auxílio-livro, o militar de quatro estrelas se aposenta com pensão vitalícia para a filha solteira de qualquer idade, o conselheiro de tribunal de contas ganha mais que o presidente da República para fiscalizar o que ninguém fiscaliza. E quando alguém ousa cortar centavo desse banquete, é golpe, é perseguição, é ataque à democracia. O dinheiro? Sai do bolso do sujeito que trabalha de Uber das seis da manhã às onze da noite para pagar o IPVA do carro que ainda está financiado. Não há recalibração possível, porque não há acionista. Há apenas vítima.

Quer dizer, a notícia parece banal e é justamente por ser banal que ela ensina. Naquele canto do mundo onde sobraram pedaços de capitalismo de verdade, o preço se ajusta sozinho, a remuneração se ajusta sozinha, o incentivo se ajusta sozinho. Ninguém precisou redigir cartilha, ninguém precisou criar agência reguladora de salário de tecnologia, ninguém precisou convocar audiência pública para discutir se o CEO merece ou não merece. O sistema de preços, esse mecanismo silencioso que distribui informação melhor que qualquer comitê de sábios, fez o trabalho enquanto os teóricos do planejamento ainda escreviam o sumário do relatório.

E note o detalhe que ninguém vai sublinhar, porque a imprensa econômica brasileira está mais preocupada em traduzir o release para o português do que em pensar. A queda de 27% acontece num ano em que a empresa rompeu barreiras de valor de mercado que pareciam ficção científica há dois anos. O executivo ganha menos justamente quando entregou mais, porque o pacote anterior já tinha capturado a expectativa. Isso é o oposto matemático do funcionalismo, onde se ganha mais quando se entrega menos, onde a improdutividade é premiada com estabilidade e a competência é punida com inveja corporativa. Dois mundos, duas lógicas, dois destinos civilizacionais.

No fim, a moral é simples e por isso ninguém quer ouvir. Onde existe propriedade privada de verdade, existe controle real sobre o uso dos recursos. Onde existe controle real, existe ajuste automático. Onde existe ajuste automático, não há necessidade de tutor, regulador, fiscal ou redentor. O resto é literatura de assessor parlamentar tentando justificar o próprio penduricalho. O capitalismo, esse condenado eterno pela intelligentsia, segue cortando o salário do rei sem precisar de revolução. E a revolução, essa coitada, segue prometendo cortar o do rei enquanto aumenta o dos seus.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.