O Japão passou as últimas três décadas construindo o mais sofisticado esquema de ilusão monetária que o mundo moderno já produziu. O banco central comprava títulos do próprio governo, mantinha juros artificialmente no zero, inundava o sistema com liquidez criada do nada e chamava isso de "política de afrouxamento quantitativo", como se dar um nome técnico a uma operação de impressão em massa fosse suficiente para neutralizar as consequências. Não foi. Esta semana, os rendimentos dos papéis japoneses de 30 anos chegaram a 3,63% e os de 40 anos superaram 4,2%, os maiores patamares desde que essas maturidades existem. A conta chegou, como sempre chega, sem avisar, sem pedir desculpas e sem negociar parcelamento.

Há um princípio que qualquer padeiro do interior entende melhor do que qualquer comitê de política monetária: o que você gasta hoje com dinheiro que não tem, você vai pagar amanhã com dinheiro que também não terá. O Japão carrega uma relação dívida-PIB na casa de 260%, a mais alta entre as grandes economias do planeta, resultado de décadas de gastos públicos justificados por emergências que nunca terminavam. Primeiro foi a recessão dos anos 1990. Depois o terremoto. Depois a crise financeira global. Depois a pandemia. Depois as tarifas de Trump. Sempre havia uma boa razão para gastar mais e sempre havia um banco central disposto a financiar o gasto comprando os títulos que o mercado privado relutava em absorver. O problema com esse arranjo não é que ele seja imoral, embora seja. O problema é que ele não funciona indefinidamente, e "indefinidamente" acabou.

O gatilho imediato desta rodada de alta foi duplo. De um lado, o governo japonês discute cortes no imposto sobre alimentos para amortecer o impacto das tarifas americanas sobre a economia doméstica, proposta simpática na superfície e desastrosa nas entranhas: qualquer redução de receita num país que já não consegue equilibrar as contas precisa ser financiada com mais dívida ou mais impressora, e o mercado, que não é idiota, passou a exigir prêmio maior para carregar esses papéis. De outro lado, as próprias tarifas de Trump, que chacoalharam o comércio global em abril e criaram um ambiente de incerteza suficiente para que investidores institucionais ao redor do mundo começassem a revisar a qualidade dos ativos que carregam, e o título japonês de 40 anos, que parecia seguro porque todo mundo dizia que era seguro, deixou de parecer seguro quando todo mundo parou de dizer isso ao mesmo tempo.

Existe um fenômeno curioso na história econômica, repetido com a regularidade de uma lei da física: os experts que passaram décadas garantindo que o modelo era sustentável são os mesmos que, no dia em que o modelo explode, explicam com grande seriedade por que a explosão era imprevisível. Nenhum deles devolve o salário. Nenhum deles pede desculpas. A surpresa é performática porque a alternativa, admitir que sabiam e ficaram quietos porque o sistema os remunerava para ficar quietos, seria intelectualmente devastadora. Quando um banco central compra sua própria dívida por décadas e o mercado finalmente precifica esse risco com honestidade, isso não é uma crise. É um ajuste de realidade. A crise foi o que veio antes.

Para o Brasil, que observa esse espetáculo do camarote de quem também convive com dívida pública crescente, juros estruturalmente altos e um banco central que não raro é pressionado a "fazer mais", o caso japonês não é exótico. É espelho. A diferença é de escala e de prazo. O Japão tinha reservas, disciplina institucional relativa e uma moeda de reserva regional que lhe permitiu estender o experimento por três décadas. O Brasil não tem esse luxo, e o mercado já cobra pelo risco com Selic na estratosfera mesmo nos anos em que não há crise aguda. O que o Japão está vivendo hoje é o ponto de chegada de uma trajetória, e o mapa dessa trajetória está escrito em qualquer livro-texto de teoria monetária séria, aqueles que as faculdades de economia pararam de adotar porque as conclusões eram inconvenientes para os governos que financiam as pesquisas. Dívida ilimitada não existe. Impressão monetária não cria riqueza. E o mercado, por mais que tente, não consegue fingir para sempre que dois mais dois é cinco.

O rendimento do título de 40 anos do Japão acaba de bater o maior nível desde seu lançamento. A notícia foi coberta como um dado técnico de mercado, mais uma linha no terminal Bloomberg entre dezenas de outras. Mas não é isso. É o som de uma estrutura que rangeu por trinta anos finalmente começando a ceder, e o mundo todo está pendurado nessa mesma estrutura, em andares diferentes, com a mesma ilusão de que o prédio é sólido porque ainda está de pé. Estava.

Com informações do Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.