Saiu mais um daqueles rankings que enchem manchete de jornal e esvaziam o significado das palavras. O rendimento médio per capita avançou em todos os estados pelo quarto ano consecutivo, anuncia a reportagem com a solenidade de quem traz boas notícias do front. O leitor, coitado, lê duas vezes, olha para o extrato bancário, confere a fatura do cartão, e fica com aquela sensação incômoda de que existem dois Brasis: o do gráfico ascendente e o da geladeira que esvazia mais rápido a cada mês. Quer dizer, alguém está mentindo, e como a geladeira não mente, sobra para a planilha.
O truque é antigo e funciona porque a maioria das pessoas não foi ensinada a desconfiar de média. Média per capita é aquele cálculo simpático em que, se você e um bilionário entram no mesmo bar, em média os dois são milionários. O estado mede renda nominal, infla a base com transferências, benefícios e abonos, soma tudo, divide pela população, e produz um número que tecnicamente está correto e existencialmente é uma piada. O que ninguém coloca no denominador é o poder de compra que evaporou no caminho. Renda que sobe seis por cento em ano de inflação acumulada de dez por cento é renda que encolheu, e nenhum economista de palanque vai te explicar isso porque o palanque paga melhor que a verdade.
Olha, vale seguir o dinheiro, que é onde mora a história inteira. Boa parte dessa renda média ampliada vem de programas de transferência, aposentadorias reajustadas no grito e expansão do funcionalismo. Ou seja, dinheiro que saiu de um bolso, passou pela tesouraria, virou rubrica orçamentária e voltou como benefício, deixando no caminho a gordura da burocracia, o lubrificante do lobby e a comissão política de praxe. O que a estatística celebra como crescimento de renda é, em larga medida, redistribuição contábil financiada por imposto presente, dívida futura e impressora monetária em pleno expediente. Não existe almoço grátis, e quem acha que o governo distribui riqueza nunca parou para perguntar de onde, exatamente, ela está sendo tirada.
Aí entra a parte que ninguém quer ver, porque exige olhar para o que não aparece no gráfico. Para cada real distribuído em transferência, há um real subtraído de algum lugar invisível: o investimento que não foi feito, a empresa que não nasceu, o emprego produtivo que não existiu, a poupança que foi corroída pela inflação que financia essa mesma generosidade fiscal. O brasileiro vê a Bolsa, o auxílio, o reajuste, e não vê a fábrica que fechou, o pequeno comércio que não suportou a carga tributária, o jovem que desistiu de empreender porque o custo regulatório come o lucro antes mesmo de ele existir. A renda média sobe no papel porque o estado redistribui com a mão direita o que confiscou com a esquerda, e ainda cobra pedágio no meio do caminho.
Tem um detalhe geográfico que escancara a farsa. Os estados que aparecem no topo do ranking são, sem coincidência, os que concentram funcionalismo federal, capital político e dependência umbilical de Brasília. Os de baixo são justamente os que produzem coisas reais, agricultura, indústria, comércio popular, mas pagam a conta de um pacto federativo que premia quem está perto do cofre e pune quem está perto da enxada. Não é ranking de produtividade, é ranking de proximidade do orçamento. Quem entende isso para de comemorar a posição no gráfico e começa a perguntar por que um país inteiro tem que mendigar repasse para um governo central que produziu o problema que diz estar resolvendo.
O resultado prático dessa contabilidade criativa é uma sociedade que aprende a depender, vota por dependência e cobra mais dependência, até descobrir, geralmente tarde demais, que trocou autonomia por mesada e liberdade por boleto pago pelo padrinho estatal. Renda de verdade não vem de planilha do IBGE, vem de produtividade, poupança, propriedade segura e moeda que não derrete na mão. Enquanto o brasileiro for treinado a celebrar média estatística enquanto o supermercado o assalta no caixa, vai continuar achando que está melhorando exatamente no ritmo em que está empobrecendo. A conta sempre chega, e quando chega, não vem com gráfico bonito, vem com fila no posto de saúde e prateleira vazia.
Com informações do Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.