Existe uma diferença fundamental entre ameaçar um país quebrado que exporta petróleo pesado para refinarias americanas e ameaçar uma potência regional que controla fisicamente o gargalo pelo qual passa aproximadamente vinte por cento do petróleo mundial. Trump, aparentemente, não fez esse cálculo, ou fez e achou que não importava. Em qualquer dos casos, o resultado é o mesmo: uma aposta assimétrica onde os ganhos potenciais são modestos e as perdas potenciais são catastróficas.

A Venezuela foi um exercício de pressão contra um regime já em colapso econômico, militarmente irrelevante, sem capacidade de projetar força além de suas fronteiras e completamente dependente do mercado americano para escoar sua produção. Maduro nunca teve como retaliar de forma que doesse de verdade em Washington. O Irã é outra categoria de problema. Teerã tem décadas de doutrina construída especificamente para negar aos americanos o uso do Golfo Pérsico, tem mísseis de cruzeiro com alcance suficiente para atingir porta-aviões, tem capacidade de minagem massiva de águas rasas e tem um histórico de agir quando se sente encurralado. Quem acompanhou o que aconteceu com petroleiros na chamada guerra dos tankers nos anos 1980 sabe que o Irã não recua quando o custo é jogado no colo do inimigo.

Siga o dinheiro e a lógica ficará mais clara. Um bloqueio efetivo do Estreito de Ormuz não controlado pelo Irã mas imposto pelos Estados Unidos provocaria um choque de oferta no mercado global de petróleo sem precedente desde 1973. O barril iria às nuvens. Quem paga essa conta? O consumidor americano na bomba de gasolina. O trabalhador brasileiro que importa diesel. A indústria europeia que já opera no limite. A grande ironia é que a ferramenta de pressão econômica se converte automaticamente em autoflagelação econômica, porque o petróleo do Golfo não é opcional para a economia global, pelo menos não nos próximos anos. Bloqueios funcionam quando você pode substituir o que está bloqueando. Ninguém substitui vinte por cento do petróleo mundial com um decreto.

Há também a questão que nenhum analista de televisão menciona com a seriedade devida: os soldados americanos no Golfo Pérsico estão fisicamente expostos de uma maneira que não estavam no caso venezuelano. Bases no Bahrein, no Qatar, em Diego Garcia, navios em águas rasas a distâncias operacionais do litoral iraniano, tudo isso forma um alvo distribuído que o Irã passou décadas mapeando, medindo e preparando respostas assimétricas. Uma escalada não controlada não seria uma operação cirúrgica com drones filmando tudo em alta definição para o noticiário das seis. Seria um ambiente de guerra de negação, com minas, enxames de pequenas embarcações, mísseis e guerra eletrônica. O manual da Venezuela não tem capítulo sobre isso.

O problema mais profundo é o seguinte: ameaças que não são cumpridas destroem credibilidade, e ameaças que são cumpridas sem planejamento adequado destroem navios. Trump está navegando entre essas duas catástrofes com a confiança de quem resolveu um problema menor e acha que o método escala infinitamente. Não escala. A geopolítica pune quem confunde o tamanho do gesto com a capacidade de sustentá-lo. Caracas capitula porque não tem escolha. Teerã cometeu sua própria loucura por décadas porque entendeu que a única moeda que o Ocidente respeita é a capacidade de tornar o custo inaceitável. E nessa moeda, o Irã não está falido.

No fim, o Estreito de Ormuz não é uma questão de força de vontade americana. É uma questão de geometria, alcance de míssil, profundidade de água e preço do barril. Quem reduz geopolítica à pergunta "quem tem mais vontade?" geralmente descobre, tarde demais, que o adversário também tem a sua.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.