Ações de bancos em Hong Kong tombaram depois que veio à tona o que todo mundo já sabia nos corredores: algumas instituições estão suspendendo a abertura de contas para residentes do continente, num esforço silencioso para conter a sangria de capital que escorre de Xangai e Shenzhen rumo a qualquer lugar onde o yuan ainda valha alguma coisa. Pequim chama isso de "combate ao comércio transfronteiriço ilegal". O resto do mundo chama pelo nome correto, fuga de capital. E quando o capital foge, ele não está fugindo por capricho, está fugindo de uma armadilha.

O roteiro é antigo e sempre o mesmo. Primeiro o governo expande crédito, infla bolha imobiliária, embriaga o sistema bancário com dinheiro barato e promete que dessa vez vai ser diferente. Depois a bolha estoura, como sempre estoura, e os chineses que ainda têm algum patrimônio começam a fazer a conta simples que qualquer dona de casa faz: se meu dinheiro está perdendo valor aqui dentro, vou colocá-lo lá fora. Em vez de corrigir a causa, o regime corrige o sintoma, fechando válvulas. Hong Kong era a última válvula respeitável, e agora estão soldando essa também.

Quer dizer, repare na ironia. Hong Kong foi vendida ao mundo durante décadas como a vitrine luminosa do "um país, dois sistemas", a prova de que o Partido Comunista respeitaria a liberdade financeira da ilha porque precisava dela para captar capital ocidental. Bastou o capital começar a fluir na direção oposta, do continente para a ilha, para que a vitrine virasse barreira. O que era porta de entrada para investimento estrangeiro vira porta de saída para poupança nacional, e a tolerância evapora do dia para a noite. Liberdade é sempre encantadora quando serve aos planos do planejador, e insuportável no minuto em que contraria.

O ponto que ninguém da imprensa econômica brasileira terá coragem de tocar é este: controle de capital é confissão de fracasso monetário. Nenhum país com moeda forte, instituições sólidas e governo previsível precisa proibir seus cidadãos de moverem o próprio dinheiro. A proibição é a admissão envergonhada de que o regime sabe que seu dinheiro não compete em mercado livre. É como prender o cliente dentro do restaurante para garantir que ele jante ali, e depois dizer que isso prova a qualidade da comida. Olha, se a comida fosse boa, a porta poderia ficar aberta.

E aqui mora a lição que serve tanto para Pequim quanto para Brasília, para Buenos Aires e para qualquer capital onde haja um burocrata sonhando em "ordenar fluxos". Quando o governo precisa correr atrás do capital com cordão de isolamento, é porque o capital já votou. E o voto do capital é o único plebiscito que os regimes não conseguem fraudar, porque acontece todos os dias, em silêncio, na forma de transferência bancária, compra de imóvel em Singapura, conta em dólar, ouro no cofre, cripto no celular. O ditador pode censurar a imprensa, prender opositor, reescrever livro de história. O dinheiro ele só consegue prender se construir uma prisão maior ainda, e quando faz isso, descobre que prendeu a si mesmo junto.

O que se vê na manchete é uma queda de ações de bancos asiáticos numa terça qualquer. O que não se vê, e é o que importa, é a milhonésima confirmação de uma lei tão antiga quanto o escambo: capital amarrado é capital morto, e país que mata o próprio capital acaba enterrando junto o futuro que dizia estar construindo.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.