A República Democrática do Congo respondeu à advertência americana sobre os preparativos do Mundial com a única palavra que importa quando se trata de soberania: continuamos. Washington torceu o nariz, sugeriu cautela, insinuou riscos, e Kinshasa simplesmente seguiu fazendo o que qualquer país adulto faz quando alguém de fora tenta gerenciar sua agenda doméstica. Disse obrigado pela opinião e tocou o projeto adiante. A cena tem algo de cômico e algo de pedagógico, porque revela o constrangimento de um império que já não tem mais o reflexo automático da obediência alheia.

Note bem o que se passa aqui. Um governo que carrega trilhões em dívida, que imprime moeda como quem distribui panfleto e que financia metade do mundo com dinheiro que não tem, decide que está em condições de aconselhar terceiros sobre prudência fiscal e organizacional. É o equivalente diplomático do alcoólatra dando palestra sobre temperança. Quer dizer, o conselho até pode ser bom em tese, mas quem o emite perdeu há muito a autoridade moral para fazê-lo. E países que antes engoliam essas advertências em silêncio agora respondem com um sorriso de canto de boca e seguem em frente.

Sigamos o dinheiro, que é onde mora a verdade dessas histórias. Toda advertência geopolítica desse tipo costuma esconder interesses concretos: contratos não fechados, empresas preteridas, esferas de influência ameaçadas por novos atores que chegaram oferecendo melhores condições. Quando Washington alerta sobre os riscos de um projeto africano, raramente está preocupado com o africano. Está preocupado com quem vai construir o estádio, quem vai operar a logística, quem vai financiar a infraestrutura, e principalmente com quem não vai ser americano nessa lista. O resto é teatro humanitário.

Há ainda a questão mais profunda, que é a do paternalismo travestido de preocupação. O Estado moderno aprendeu a oprimir não com tanques, mas com relatórios técnicos, recomendações de organismos internacionais e advertências bem intencionadas que sufocam a autonomia alheia em nome da segurança alheia. É a tirania que se acredita boa, e por isso mesmo a mais difícil de combater, porque o tirano dorme tranquilo achando que prestou um serviço. Kinshasa, ao recusar o conselho, faz algo civilizatoriamente importante: lembra que adulto não precisa de tutor.

O Congo tem problemas reais, ninguém em sã consciência discute isso. Infraestrutura precária, instituições frágeis, corrupção endêmica, segurança longe do ideal. Mas a solução desses problemas não virá de uma nota diplomática emitida em Washington, virá do exercício concreto de fazer coisas, errar, corrigir, aprender. Sediar um evento global é exatamente o tipo de projeto que força um país a se organizar, a melhorar logística, a profissionalizar serviços. A alternativa, que é nunca tentar nada porque o tutor estrangeiro acha arriscado, é a receita perfeita para a estagnação eterna.

O que está em jogo aqui, no fundo, é o velho princípio de que os povos têm o direito de tomar suas próprias decisões e arcar com suas próprias consequências. Quando se retira esse direito em nome da proteção, retira-se junto a possibilidade do amadurecimento. O Mundial pode dar certo ou pode dar errado, e em ambos os casos será uma experiência genuinamente congolesa, não uma tutela bem comportada de capital estrangeira. E isso, num mundo cada vez mais administrado por comitês distantes, já é por si só uma pequena vitória da liberdade.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.