Existe uma manobra muito conhecida nos círculos progressistas católicos que consiste em sequestrar a doutrina social da Igreja para legitimar o que essa mesma doutrina condenou com todas as letras. A operação é simples e funciona porque conta com a ignorância do interlocutor. Fala-se em justiça social, em opção preferencial pelos pobres, em destino universal dos bens, e de repente o sujeito está defendendo expropriação, imposto confiscatório e estatização de meios de produção como se isso fosse desdobramento natural do Evangelho. O detalhe inconveniente é que o documento fundador dessa doutrina, escrito quando o socialismo ainda era novidade europeia e não tinha matado seus primeiros cem milhões, disse exatamente o oposto.

O texto papal de 1891 não tergiversou. Definiu a propriedade privada como direito natural, anterior ao Estado, inscrita na própria razão humana e na ordem da criação. O argumento é elegante e devastador. O homem, diferentemente do animal, antecipa o futuro, planeja, poupa, transmite. Para fazer isso, precisa de algo estável, algo seu, algo que não dependa da boa vontade de um burocrata ou da inveja de um vizinho. Retirar essa estabilidade é mutilar a natureza humana, é tratar o pai de família como gado, é destruir a base material sobre a qual se constrói qualquer civilização decente. Quem propõe abolir a propriedade não está sendo generoso, está sendo antropologicamente analfabeto.

E a encíclica vai além da defesa. Ataca frontalmente o remédio socialista, chamando-o de injusto com o trabalhador honesto, perturbador das funções do Estado e fonte de confusão geral. O raciocínio segue uma linha que qualquer pessoa minimamente honesta consegue acompanhar. Se você tira do operário a possibilidade de transformar seu salário em patrimônio, você o condena à dependência perpétua. Se você concentra todos os meios de produção nas mãos do governo, você não acabou com a exploração, apenas trocou mil patrões falíveis por um patrão único e onipotente, contra o qual não existe greve, sindicato ou recurso. A história do século vinte, que o pontífice não viveu para ver, deu razão sangrenta a cada vírgula daquele texto.

Vale seguir o dinheiro dessa fraude hermenêutica contemporânea. Quem ganha quando se vende coletivismo embrulhado em papel de seda eclesiástico? Não é o pobre, que continua pobre em todo país que tentou o experimento. Não é o operário, que perdeu o direito de organizar-se onde o partido único monopolizou a representação trabalhista. Não é a Igreja, que viu seus bens confiscados e seus padres assassinados em cada revolução vermelha do Cabo Caribe à Cortina de Ferro. Ganha o intelectual de seminário que troca sua biblioteca por uma cadeira em conselho de ONG financiada por fundação estrangeira. Ganha o burocrata religioso que descobre que falar a língua do mundo paga melhor que falar a língua do céu.

O mais cômico, ou trágico conforme o humor do dia, é que a alternativa proposta pela encíclica é infinitamente mais radical e mais humana do que o estatismo dos pseudo-cristãos sociais. O documento defende salários justos, defende associações livres de trabalhadores, defende limites morais ao patronato, defende a família como célula intocável, defende que o Estado tem deveres para com os fracos. Tudo isso sem precisar destruir a propriedade, sem precisar nivelar pela miséria, sem precisar criar a igualdade dos servos. O caminho proposto era o do mercado civilizado pela virtude, da liberdade temperada pela caridade, da subsidiariedade que resolve no nível mais baixo possível e só sobe quando estritamente necessário. Exatamente o contrário do leviatã assistencialista que pretendem nos vender hoje em nome do mesmo Evangelho.

Antes de derrubar uma cerca, convém entender por que ela foi erguida. A cerca da propriedade privada foi erguida porque, sem ela, o homem deixa de ser homem e vira súdito. Foi erguida porque a família precisa de patrimônio para existir como família e não como dormitório coletivo. Foi erguida porque a liberdade política sem liberdade econômica é teatro, é encenação, é mentira institucionalizada. Quem usa a tradição cristã para atacar essa cerca ou nunca leu seriamente o que defende ou está mentindo conscientemente. Em qualquer dos casos, deveria parar de invocar o que não compreende.

Com informações do Mises Institute. A análise e opinião são do O Algoz.