A manchete vem com cara de revelação científica, mas o conteúdo é o tipo de coisa que qualquer avó analfabeta diria de graça no fim do almoço de domingo. Sessenta e nove por cento dos trabalhadores brasileiros afirmam que o que garante um bom dia de trabalho é serem tratados com respeito. Não é salário milionário, não é ginástica laboral, não é o pufe colorido na sala de descompressão, não é a palestra motivacional do guru de LinkedIn cobrando trinta mil por hora. É respeito. A coisa mais barata, mais antiga e mais escassa do mundo corporativo brasileiro.
O dado só causa espanto porque vivemos décadas convencidos de que o trabalhador é um recurso, daí o nome do departamento que cuida dele. Recurso é petróleo, recurso é minério, recurso é água de reuso. Gente não é recurso, gente é gente, e quando você trata gente como insumo de produção a primeira coisa que se perde é justamente a dignidade da relação. O resto vem em cascata, a produtividade despenca, o engajamento evapora, o turnover dispara, e aí contrata-se consultoria cara para descobrir, por meio de pesquisa, que talvez fosse uma boa ideia parar de humilhar as pessoas no expediente.
Repare na ironia da coisa. As mesmas empresas que gastam fortunas em treinamento de diversidade, em comitê de bem-estar, em programa de saúde mental com aplicativo de meditação, são frequentemente aquelas em que o gerente médio trata o subordinado como serviçal medieval e o diretor trata o gerente como capacho. O verniz progressista existe para a foto institucional, o relatório de sustentabilidade e o selo de empresa cidadã. Por baixo do verniz, sobra a velha barbárie hierárquica do brasileiro que descobriu um cargo e decidiu vingar-se de toda humilhação sofrida na infância em cima do primeiro coitado que apareceu no organograma.
Há um aspecto ainda mais perverso aqui, que é o cinismo de transformar respeito em programa corporativo. O respeito não se decreta em workshop, não se implementa em política de RH, não se mede em KPI trimestral. Ou a cultura interna trata o ser humano como portador de dignidade intrínseca, ou trata como engrenagem substituível, e nenhum departamento de cultura organizacional consegue maquiar essa diferença por muito tempo. O trabalhador sente, e sentindo, ou vai embora, ou fica e morre por dentro, o que é pior para todo mundo, inclusive para o balanço da empresa.
Vale lembrar também que essa cultura de desrespeito não nasceu no setor privado por geração espontânea. Ela é filhote direto do tratamento que o Estado brasileiro dispensa ao cidadão há gerações, aquele balcão eterno onde o servidor olha o contribuinte como suspeito permanente, onde a fila é castigo, onde o formulário é armadilha, onde o carimbo é poder. A empresa importou o modelo do governo, porque foi com o governo que o brasileiro médio aprendeu o que é tratamento institucional. Resultado, virou cultura, e a cultura é a parte mais difícil de mudar em qualquer sistema, porque ela não está escrita em lugar nenhum e está escrita em todos os lugares ao mesmo tempo.
A boa notícia, se é que existe, é que respeito custa zero reais e zero centavos. Não precisa de subsídio, não precisa de incentivo fiscal, não precisa de marco regulatório novo, não precisa de comissão tripartite no Ministério do Trabalho. Precisa apenas que o chefe entenda que do outro lado da mesa tem uma pessoa inteira, com história, família, dores e projetos próprios, que aceitou trocar parte do seu tempo finito de vida por um salário, não por uma sentença de servidão. Quem entender isso ganha funcionário leal de graça. Quem não entender vai continuar pagando consultoria para descobrir o óbvio em pesquisa de opinião.
Com informações da Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.