A notícia chega embrulhada no papel de presente de sempre. Colômbia vota, forte policiamento garante que a urna funcione, resultado sai por volta das vinte horas, e o leitor é convidado a aplaudir a festa cívica. Pois bem, vamos desembrulhar. Quando o adjetivo escolhido para descrever uma eleição é "tranquila graças ao policiamento", o que se está dizendo, em bom português, é que sem fuzil ninguém votaria em paz. Isso não é democracia funcionando. É democracia em respirador, com a polícia segurando o tubo.
A Colômbia há décadas é o laboratório vivo de uma tese incômoda que ninguém da imprensa internacional gosta de admitir, a saber, a de que instituições não se sustentam no papel da constituição, sustentam-se na cultura e nos costumes de um povo que aprendeu, geração após geração, a respeitar contratos, propriedade e a palavra dada. Quando esse tecido se rasga, o que sobra é exatamente o que se vê hoje em Bogotá, Cali e Medellín, uma população que troca a urna pelo voto de medo, ora coagida pelo narcotráfico, ora seduzida pelo populismo de turno, ora resignada porque desconfia que tanto faz quem ganhe, o saque continua.
E o saque continua mesmo. Olha, é só seguir o dinheiro. O atual ocupante do Palácio de Nariño chegou ao poder prometendo redistribuição, justiça social e a velha cantilena de sempre, e o resultado foi déficit fiscal explodindo, fuga de capitais, reforma tributária que aperta o produtivo para alimentar o aparato, e uma economia que cresce abaixo do potencial enquanto o discurso oficial culpa o "neoliberalismo" por feridas que o próprio governo abriu com bisturi ideológico. É o roteiro continental, repetido com a fidelidade de quem decora a oração antes de dormir. Argentina já passou por isso, Venezuela passou e não voltou, Brasil flerta perigosamente com o mesmo abismo, e a Colômbia agora vai às urnas decidir se acelera ou freia o despenhadeiro.
O detalhe que merece nota, e que a manchetaria preguiçosa não dá, é a naturalização do estado de exceção permanente. Forte policiamento virou paisagem. Helicóptero sobrevoando seção eleitoral virou normalidade. Candidato andando com colete e seguranças virou requisito de campanha. Quer dizer, o cidadão colombiano internalizou que o ato mais corriqueiro de uma república, escolher quem governa, exige aparato militar para acontecer. E ninguém pergunta por que. Ninguém pergunta quem ganhou nas últimas décadas com essa militarização contínua da vida pública, quem fatura com os contratos de segurança, quem precisa do caos para justificar o orçamento, quem se elege prometendo combater a violência que ele mesmo alimenta no varejo eleitoral.
Há uma lição amarga aqui, e ela vale para o Brasil que assiste de camarote fingindo que o problema é dos vizinhos. Liberdade econômica e liberdade política são gêmeas siamesas, não dá para matar uma e esperar que a outra sobreviva no respirador. Quando o Estado avança sobre a propriedade, sobre o contrato, sobre a moeda, sobre a escola, sobre a família, o que resta de instituição vira fachada. A urna funciona, claro, mas funciona como funciona o teatro, com atores cumprindo o roteiro enquanto a peça de verdade se decide nos bastidores, entre quem manda no narcotráfico, quem manda no aparato e quem manda na narrativa.
O resultado sai hoje por volta das vinte horas. Pouco importa o nome do vencedor. Importa entender que cada eleição feita sob escolta é uma nota promissória que algum dia vence, e quando vence ninguém quer ser o portador. A pergunta que o jornalismo bem comportado não fará é a única que merece resposta. De que adianta contar voto se já não se conta mais com nada?
Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.