A cena se repete com a frequência de novena: uma empresa do setor de defesa e treinamento aeronáutico publica balanço, o mercado destrincha cada vírgula da margem operacional, e, como bônus, anuncia o desinvestimento de uma unidade que já não combina com a "estratégia de longo prazo". Traduzindo do dialeto corporativo para o português dos mortais, a CAE vende a Flightscape porque precisa enxugar o que sobra, focar no que dá margem gorda, e o que dá margem gorda, convenientemente, é o contrato que tem assinatura de ministro embaixo. Os investidores entendem o recado e sorriem. O contribuinte, que financia a festa, continua sem ser convidado para a mesa.

Quem olha os resultados da CAE sem entender o arranjo enxerga uma multinacional competente, com presença em dezenas de países, fornecendo simuladores e treinamento para aviação civil e militar. Quem segue o dinheiro vê outra coisa: uma empresa cuja espinha dorsal é o orçamento de defesa do Canadá, dos Estados Unidos, da Austrália, do Reino Unido. Quando o ciclo civil aperta, ali está o Pentágono e seus primos da OTAN com cheque pronto. Quando o militar desacelera, vem o programa de modernização travestido de "parceria estratégica". A empresa nunca quebra porque, no fundo, ela não opera em mercado, opera em corredor de licitação.

A venda da Flightscape é o detalhe que entrega o filme. Você desinveste do que não roda sozinho, do que exige capital sem entregar o tipo de receita previsível que vem com contrato governamental de uma década. É decisão financeira impecável, e exatamente por isso é politicamente reveladora. A administração da CAE não está cortando gordura para competir melhor no mercado livre; está se concentrando onde o mercado livre não existe, onde o cliente é cativo, o preço é negociado em gabinete e o reajuste vem com a mesma naturalidade com que o sol nasce em Ottawa. O acionista celebra, e tem razão de celebrar, porque o jogo está armado a seu favor.

Olha, a falácia aqui é antiga e sempre vendida com novo verniz. Diz-se que a indústria de defesa "gera empregos", "movimenta cadeia produtiva", "impulsiona a inovação tecnológica". Tudo verdade contábil parcial e mentira econômica completa. O dinheiro que financia o simulador de voo militar saiu do bolso de alguém que talvez quisesse trocar de carro, abrir uma padaria ou pagar dentista para o filho. Esses empregos não existem em planilha alguma porque nunca chegaram a nascer. O que se vê é o engenheiro contratado pela CAE; o que não se vê é a fila de pequenas iniciativas privadas que morreram antes de respirar porque o capital foi sugado pela tributação que sustenta o contrato bilionário. A conta sempre fecha, só que do lado errado.

E há ainda o capítulo cultural da história, que a página de economia raramente ousa abrir. Empresas que vivem de contrato estatal por décadas se transformam em organismos burocráticos disfarçados de companhia privada. Os executivos circulam entre o conselho e os ministérios com a mesma desenvoltura. Os lobistas viram consultores, os consultores viram secretários, os secretários voltam para o conselho. É o tal capitalismo de compadrio que nada tem de capitalismo, mas continua sendo chamado assim porque a palavra "estatal" denunciaria o esquema. A Flightscape sai do balanço, o arranjo continua intocado, e o noticiário trata o episódio como exercício de governança corporativa. Quer dizer, a fantasia funciona porque ninguém quer arrancá-la.

Me diz uma coisa: se essa empresa fosse mesmo o monumento à eficiência privada que o release pinta, por que tanto cuidado para manter o cordão umbilical com os tesouros nacionais bem amarrado? A resposta o leitor já sabe, ainda que o gestor de fundos finja não saber. Sem orçamento militar, a CAE não é gigante, é uma fabricante média de equipamento sofisticado disputando margem com concorrentes ferozes. Com orçamento militar, ela é o que é: uma máquina previsível de retorno ao acionista, com risco transferido para o pagador de impostos. O investidor que entendeu o jogo está certo em comprar a ação. O cidadão que paga o jogo está errado em continuar calado.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.