A Campbell's, aquela mesma das latas vermelhas que viraram quadro de museu nos anos sessenta, divulgou resultados que fariam qualquer acionista trocar a sopa por um copo d'água. As margens encolheram, as vendas patinaram, e a explicação oficial veio embrulhada no de sempre, inflação persistente e concorrência agressiva. Tradução honesta para quem entende de gente, o consumidor está quebrado e descobriu o rótulo branco do supermercado.
Vale lembrar de onde vem essa inflação que a empresa cita como se fosse fenômeno meteorológico, algo que cai do céu sem culpado. Não cai. Brota da impressora monetária que rodou anos a fio para financiar gastança pública, estímulos pandêmicos, guerras distantes e programas eleitoreiros. Cada dólar fabricado do nada desvalorizou os dólares que já circulavam, e a conta sempre chega na ponta, no carrinho de compras da dona de casa de Ohio que olha o preço da lata e devolve para a prateleira. A Campbell's não está sofrendo de inflação, está sofrendo das consequências de um sistema monetário que transformou poupança em piada e planejamento em adivinhação.
Há ainda o detalhe que ninguém em conference call quer mencionar com clareza. Décadas de captura regulatória protegeram marcas legadas, blindaram processos antiquados, sufocaram entrantes com exigências sanitárias desenhadas sob medida para quem já tem escala. Funcionou enquanto o consumidor tinha gordura no bolso. Agora que o bolso secou, o feitiço virou contra o feiticeiro, porque o mesmo cidadão que pagava ágio por reconhecimento de marca descobriu que sopa de marca própria não tem gosto pior, só tem preço melhor. A fidelidade construída em décadas de marketing desmorona em dois trimestres de aperto real.
O que se vê é a margem da Campbell's. O que não se vê é o custo escondido em cada elo da cadeia, o produtor rural que pagou mais caro pelo diesel, o transportador que pagou mais caro pelo pedágio federal, o operário da fábrica que pediu reajuste para não regredir, o varejista que aumentou aluguel por imposição do shopping. Cada um desses custos foi empurrado para frente até bater no ponto final, o consumidor, que simplesmente decidiu comer menos sopa enlatada. Não é crise da empresa, é colapso silencioso de um modelo que dependia de moeda estável e consumidor confiante, duas coisas que governos modernos parecem decididos a extinguir.
O remédio que virá será o de sempre, demissões anunciadas como reestruturação, fechamento de linhas vendido como otimização, pedido velado por algum tipo de subsídio ou benefício fiscal que socialize o prejuízo enquanto privatiza o lucro residual. E quando o próximo trimestre vier ainda pior, alguém em Washington vai propor protecionismo contra a sopa importada, ou uma campanha nacional para incentivar o consumo de produtos americanos, qualquer coisa menos encarar o óbvio. O óbvio é que não existe almoço grátis nem jantar barato quando a moeda apodrece na cozinha.
Me diz uma coisa, quanto tempo até descobrirem que o problema não era a sopa, era o caldo em que ela foi mergulhada nos últimos vinte anos. A Campbell's sobreviveu a duas guerras mundiais, à grande depressão, à estagflação dos anos setenta. Pode ser que sobreviva a esta também, mas só se entender que seu inimigo não está no concorrente da prateleira ao lado, está no prédio do Federal Reserve. Enquanto isso, o consumidor faz o que sempre fez quando o governo encarece tudo, aperta o cinto, troca de marca e espera o próximo político prometer que desta vez vai ser diferente.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.