A Church & Dwight, dona de marcas que estão na pia de meio mundo, chega aos resultados trimestrais com a mesma faca no pescoço que aperta praticamente toda empresa de bens de consumo no planeta hoje: matéria-prima cara, energia cara, logística cara, embalagem cara, e um consumidor que já não engole repasse de preço com a docilidade de antes. O mercado financeiro chama isso de "teste de margens". Quem entende um mínimo de economia sabe que o teste verdadeiro acontece na prateleira, e quem está sendo testado é o sujeito que precisa lavar a roupa do filho na segunda-feira de manhã.

Há uma encenação curiosa nesses balanços. Analistas vestem terno, abrem planilha, falam em "pressão inflacionária nos insumos" como se a inflação fosse um fenômeno meteorológico, algo que aparece no radar sem causa identificável, como nuvem de chuva vinda do mar. Não é. Inflação tem endereço, tem CNPJ, tem prédio com colunas. Quando bancos centrais inundam o sistema de liquidez por uma década, depois fingem surpresa quando o preço de tudo sobe, e em seguida apontam o dedo para o "ganancioso" que reajustou o detergente, o que se está fazendo é teatro. Teatro caro, pago pelo mesmo consumidor que está reclamando do preço do sabão em pó.

Repare na mecânica. A empresa que produz produto de limpeza compra soda cáustica, surfactantes derivados de petróleo, plástico para a embalagem, papelão para a caixa, paga frete, paga energia, paga folha. Cada um desses custos foi inflado por decisões tomadas longe do chão de fábrica: política monetária frouxa de um lado, regulação ambiental cara de outro, tarifa comercial no meio, subsídio energético distorcendo o cálculo verdadeiro do que custa produzir um quilowatt. A empresa não inventou esses custos. Ela os herda. E quando tenta repassar, ouve que está abusando. Quando absorve, vê a margem evaporar e o acionista fugir. É um arranjo desenhado para que o produtor seja sempre o vilão, nunca aquele que assina a política que criou o problema.

O detalhe que o noticiário econômico costuma esconder, talvez por preguiça, talvez por conveniência, é que margens espremidas não significam empresa lucrando demais. Significam o oposto. Significam que o capital que poderia financiar pesquisa, salário melhor, fábrica nova, expansão, está sendo corroído antes de virar produto. E quando o capital é corroído sistematicamente, o que sobra é concentração, porque só os maiores aguentam o aperto, e os menores vendem ou quebram. Aí o mesmo regulador que criou o ambiente hostil para o pequeno aparece dizendo que vai investigar a concentração de mercado. É de rir, se não fosse de chorar.

Existe ainda a parte que ninguém quer encarar de frente. O consumidor que está trocando a marca premium pela marca branca, o mesmo que está comprando o tamanho menor porque o preço unitário ficou inviável, está sinalizando algo que nenhum índice oficial captura direito: a perda real de poder de compra acumulada não é a do mês passado, é a da última década inteira de complacência monetária. O detergente é só o termômetro. O paciente febril é a moeda. E enquanto se discutir o sintoma fingindo ignorar a causa, todo trimestre teremos a mesma reportagem com nomes de empresa diferentes, sempre com a mesma conclusão fingidamente surpresa.

No fim, é sempre a mesma história contada com fantasia nova. Quem fabrica é tratado como suspeito, quem regula é tratado como salvador, e quem imprime é tratado como técnico neutro fazendo seu trabalho. O resultado vai estar no balanço da Church & Dwight, no balanço da concorrente dela, no seu carrinho de supermercado e na conta que chega no fim do mês. A festa foi de poucos. A ressaca, como sempre, é coletiva.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.