A Deckers Outdoor entregou mais um trimestre daqueles que fazem analista de banco bater palma e investidor de varejo correr atrás do prejuízo. A Hoka, queridinha do momento, segue empilhando crescimento de dois dígitos enquanto a UGG, vovó do portfólio, faz o trabalho silencioso de pagar as contas. O mercado celebra, as ações oscilam conforme o roteiro previsível, e a manchete pergunta se a Hoka aguenta o ritmo. Pergunta errada. A pergunta certa é outra: como diabos um tênis de corrida virou item de consumo de luxo num país onde o juro real corrói o salário do trabalhador médio mês após mês?

Olha, o fenômeno Hoka não é mistério de marketing nem genialidade de design. É consequência direta de uma década inteira de dinheiro fácil que inflou o que economista chama com pudor de "ativos" e que na vida real significa o seguinte: a classe média alta americana ficou rica no papel, gastou como se fosse rica de verdade, e agora compra tênis de oitocentos reais como quem comprava All Star de duzentos vinte anos atrás. Quando o banco central de qualquer país imprime dinheiro por uma década, o preço relativo das coisas se distorce de um jeito que ninguém quer admitir. Tênis vira artigo de status, casa vira ativo financeiro, e o salário vira piada de mau gosto.

A Deckers, sejamos justos, fez o dever de casa que toda empresa privada bem administrada faz quando ninguém está olhando: identificou um nicho, executou direito, escalou com disciplina e entregou produto que o consumidor quer comprar. Isso é o capitalismo funcionando como deveria, sem subsídio, sem incentivo fiscal disfarçado, sem regulamentação cavada por lobby para esmagar concorrente. O problema não é a Deckers. O problema é o pano de fundo macro que faz parecer normal o consumidor estourar o cartão para comprar o quinto par de tênis funcional quando o aluguel está consumindo metade do contracheque.

Quer dizer, siga o dinheiro e o quadro fica nítido. A festa do consumo discricionário americano dos últimos anos não foi paga com produtividade nem com poupança. Foi paga com expansão monetária travestida de prosperidade, com dívida pública batendo recorde atrás de recorde, e com a ilusão estatística de que inflação só conta quando o governo permite que conte. A Hoka cresce porque existe um exército de consumidores que ainda acredita que o salário real está intacto, quando na verdade está sendo lentamente devorado pela impressora que ninguém vê funcionando.

E aqui está a parte que o relatório trimestral não vai dizer ao acionista: empresas de consumo discricionário são as primeiras a sentir quando a maré vira. Enquanto o crédito flui e o efeito riqueza dos imóveis e das ações segura a percepção de bem-estar, a Hoka voa. No dia em que o ciclo finalmente cobrar a conta, e ele sempre cobra, porque expansão artificial de crédito nunca terminou bem em lugar nenhum desde que existe registro histórico, o consumidor vai redescobrir que tênis de corrida não precisa custar o equivalente a uma cesta básica e meia. A pergunta não é se a Hoka mantém o ritmo. É quanto tempo a ficção macro que sustenta esse ritmo ainda consegue se manter de pé.

O resto é ruído de analista que ganha bônus para ser otimista e jornalista financeiro que confunde resultado trimestral com fundamento econômico. Empresa boa continua boa. Bolha continua bolha. As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo, e geralmente são.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.