A HPE divulgou resultados trimestrais e Wall Street reagiu com entusiasmo justamente porque a recém adquirida Juniper Networks entrou na consolidação dos números. Receita acima do esperado, margem turbinada pelo segmento de redes, guidance reforçado pela promessa de sinergias bilionárias. O roteiro é conhecido. Toda vez que uma empresa madura compra outra empresa madura, o departamento de relações com investidores transforma soma de duas estagnações em narrativa de crescimento. E o analista de banco, que precisa justificar a recomendação de compra para o cliente, finge que não percebeu o truque contábil.
Vale lembrar o trajeto dessa fusão para entender o que realmente está acontecendo. A operação de quatorze bilhões de dólares ficou parada quase dois anos na gaveta dos reguladores antitruste americanos, que primeiro processaram para barrar o negócio e depois aceitaram um acordo costurado às pressas. O Departamento de Justiça exigiu desinvestimentos cosméticos, a HPE concordou, e o casamento foi consumado. Quer dizer, a mesma burocracia que existe teoricamente para proteger o consumidor da concentração de mercado serviu apenas para encarecer a operação em honorários de advogados e atrasar o cronograma. No fim, a fusão que ia acontecer aconteceu, só que com mais gordura no caminho para os escritórios de Washington.
O ponto que ninguém na imprensa financeira quer encarar é por que duas empresas precisaram se fundir em primeiro lugar. A HPE existe há décadas tentando provar que ainda é relevante depois que a HP original se partiu ao meio. A Juniper passou anos sendo a eterna segunda opção atrás da Cisco no mercado de equipamentos de rede. Juntar dois sobreviventes não cria um vencedor, cria um sobrevivente maior. O que está sendo vendido como sinergia, na linguagem dos comunicados corporativos, costuma se traduzir em demissão em massa nos primeiros dezoito meses, eliminação de produtos redundantes e perda de clientes que não gostam de fornecedores em transição.
Há ainda o detalhe que os boletins eufóricos não mencionam: boa parte do salto de receita do segmento de redes vem simplesmente da consolidação contábil da Juniper, não de venda nova conquistada no mercado. É o mesmo truque do sujeito que dobra o salário casando com alguém que também tem salário e depois anuncia para a família que prosperou. A HPE não cresceu organicamente naquele número que o mercado está aplaudindo. Ela comprou o crescimento, financiou a compra com dívida em ambiente de juros ainda elevado, e agora vai precisar gerar fluxo de caixa por anos só para justificar o preço pago. Cada centavo de sinergia prometida será cobrado pelo mercado depois com lupa.
O entusiasmo das ações revela menos sobre a HPE e mais sobre o ambiente de capitais que se acostumou a celebrar engenharia financeira como se fosse criação de riqueza. Quando o investidor aplaude fusão de empresas em platô, ele está dizendo que prefere narrativa a fundamento, prefere promessa de corte de custo a evidência de inovação. A verdadeira tecnologia americana, aquela que cresce porque inventa, está concentrada em meia dúzia de nomes que todos conhecem. O resto do setor virou um xadrez de fusões e aquisições onde peças velhas trocam de mãos e os bancos de investimento ficam com a comissão. A bolsa festeja hoje, e daqui a três anos alguém vai ter que explicar por que as sinergias prometidas nunca apareceram inteiras.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.