A cena se repete com a previsibilidade de um relógio quebrado que acerta duas vezes por dia. Empresa de infraestrutura solta resultado, analista de banco aparece na tela com gravata azul, e o veredicto sai pronto de fábrica: a MasTec vai surfar o boom dos datacenters, a inteligência artificial vai consumir energia como nunca, e quem comprar a ação hoje vai agradecer amanhã. O problema é que o sujeito de gravata azul nunca explica de onde vem o dinheiro que vai construir esses galpões gigantescos cheios de servidor zumbindo. E quando você puxa o fio da meada, descobre que boa parte dele tem o mesmo cheiro de sempre, o cheiro de tinta fresca saindo da impressora do banco central americano.

Olha, ninguém está dizendo que datacenter é coisa ruim. Datacenter é maravilhoso, é a espinha dorsal da economia digital, é onde mora o e-mail da sua avó e o algoritmo que decide qual vídeo você vai assistir hoje à noite. O que precisa ser dito, e quase ninguém diz, é que a velocidade absurda dessa expansão não tem nada de natural. Empresa que sai construindo galpão de bilhão de dólares em série não está respondendo a sinal de preço genuíno, está respondendo a uma enxurrada de crédito barato, incentivo fiscal estadual, contrato com o Tio Sam e promessa de que a Reserva Federal não vai deixar a festa acabar. É boom de crédito disfarçado de revolução tecnológica, e a diferença entre os dois só fica clara quando o juro sobe de verdade.

Quer dizer, faça o exercício de seguir o dinheiro. A MasTec constrói para hyperscalers que torram caixa em ritmo industrial porque o mercado de capitais lhes joga dinheiro na cara em troca de promessa de receita futura com inteligência artificial. Esse mercado de capitais, por sua vez, opera há quinze anos sob anestesia monetária, com taxa de juros artificialmente comprimida e balanço do banco central inchado a níveis que teriam parecido ficção científica em 2007. Some a isso pacotes federais de infraestrutura, isenções estaduais para atrair galpões e tarifas de energia subsidiadas, e o que parecia capitalismo competitivo se revela, na luz crua, como um arranjo entre conglomerados e burocratas onde o consumidor entra como pagador silencioso da conta.

E aqui mora a parte que ninguém vê, justamente porque é o que não se vê. Cada megawatt redirecionado para alimentar fileiras de GPU é um megawatt que não vai para indústria, residência ou comércio, e a conta de luz da padaria da esquina sobe sem que ninguém ligue os pontos. Cada engenheiro contratado a peso de ouro pela construtora de datacenter é um engenheiro que não está em outro setor produtivo. Cada dólar de crédito jogado nesse ciclo é um dólar que o poupador comum perdeu em poder de compra. A manchete celebra o emprego criado no canteiro de obras; a manchete não fala da pequena empresa que fechou porque o financiamento secou para ela enquanto sobrava para o gigante da nuvem.

O resultado da MasTec, portanto, é menos um indicador de saúde econômica e mais um termômetro do tamanho da bolha. Quando uma empresa de infraestrutura passa a ser tratada como aposta em tecnologia de ponta, é porque o capital perdeu completamente a noção de risco e começou a precificar promessa como se fosse fluxo de caixa realizado. Já vimos esse filme nos trilhos de ferro do século dezenove, nas fibras óticas do final dos anos noventa, nos imóveis americanos de 2006. O enredo muda de figurino, a moral da história permanece intacta. Boom de crédito não constrói riqueza duradoura, constrói cenário de teatro que desaba quando os holofotes se apagam.

Me diz uma coisa, no fim da contagem, quem é que vai ficar segurando o mico quando o juro real subir, quando a demanda projetada de inteligência artificial se mostrar metade do que prometeram, quando os contratos com hyperscalers começarem a ser renegociados com desconto? Não vai ser o executivo que já vendeu suas opções. Não vai ser o banqueiro que estruturou o financiamento. Vai ser o fundo de pensão do trabalhador, o aposentado que comprou ETF achando que estava diversificando, o contribuinte que vai bancar o pacote de socorro quando alguém gritar risco sistêmico. A festa é particular, a ressaca é coletiva, e quem manda a conta nunca aparece no convite.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.