A MSA Safety, fabricante de capacetes, máscaras e detectores de gás que ninguém compra por impulso na farmácia, vai a mercado anunciar que sua linha de produtos novos é o que vai destravar o próximo ciclo de crescimento. A frase soa familiar porque é. É a mesma frase que toda empresa industrial de capital aberto repete trimestre após trimestre desde que o Federal Reserve descobriu que podia imprimir dinheiro sem que ninguém visse o estrago. Inovação virou palavra mágica, fórmula de relatório, abracadabra corporativo para distrair de uma realidade mais aborrecida: que o crescimento real, aquele que vem de demanda autêntica e não de financiamento barato, está cada vez mais raro num mundo onde o juro foi sequestrado por banqueiros centrais.
Olha, ninguém aqui está duvidando de que a MSA faça produto bom. Detector de gás é coisa séria, e quando um operário de plataforma de petróleo confia o pulmão num equipamento, é melhor que o equipamento funcione. O ponto é outro. O ponto é o teatro montado em torno do anúncio, a coreografia entre departamento de relações com investidores, analistas sell side e a imprensa especializada que pega o press release, troca o cabeçalho e publica como análise. Quer dizer, a mesma fonte que diz que o produto é revolucionário é a fonte que ganha comissão se a ação subir. Tem coisa mais elegante do que isso?
Siga o dinheiro e você entende o jogo. A indústria de equipamento de segurança vive de duas tetas, e nenhuma delas é o livre mercado puro. A primeira é a regulação, porque governo manda empresa comprar capacete homologado, máscara homologada, detector homologado, e essa homologação é um cartório que separa quem entra do mercado de quem fica de fora. A segunda é o setor público, prefeitura, bombeiro, exército, defesa civil, todos clientes cativos que compram com dinheiro do contribuinte e raramente discutem preço. Inovação nesse contexto é menos sobre engenharia e mais sobre conseguir uma nova certificação que torne obsoleto o estoque do concorrente. É captura regulatória vendida como progresso tecnológico.
E aí entra a parte que ninguém comenta, aquilo que se vê e aquilo que não se vê. O que se vê é o relatório bonito, a margem operacional, o slide com gráfico ascendente, o CEO sorrindo no Investor Day. O que não se vê é o pequeno fabricante regional que não tem capital para passar pelo processo de certificação que custa milhões, é o produto bom que não chega ao mercado porque o lobby do setor convenceu a agência reguladora a exigir testes que só a empresa grande aguenta pagar, é o consumidor industrial que paga preço de monopólio porque a concorrência foi asfixiada na origem. Isso não aparece no balanço, mas está lá, no preço inflado de cada cilindro de oxigênio vendido.
O investidor que olha esses resultados e enxerga apenas crescimento de receita está olhando para a sombra na parede da caverna. O número existe, é real, mas não diz o que parece dizer. Crescimento sustentado se constrói com produtividade genuína, com poupança convertida em capital produtivo, com demanda voluntária de gente gastando o próprio dinheiro porque quer aquilo. Crescimento subsidiado por compulsão regulatória e contrato público é outra coisa, é renda extrativa fantasiada de empreendedorismo. Dura enquanto o Estado durar com vontade de gastar, e o Estado americano, que já tem trinta e seis trilhões de dólares de dívida, está chegando ao limite dessa farra.
Me diz uma coisa, faz sentido apostar pesado numa empresa cujo modelo de negócios depende da continuidade do gigantismo regulatório e da expansão fiscal indefinida do Tio Sam? Talvez sim, no curto prazo, porque inércia institucional é a coisa mais resistente que existe. Mas quem confunde durabilidade da bolha com solidez do negócio vai pagar caro quando a música parar. E a música sempre para. Sempre.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.