A Olema Pharmaceuticals divulgou seu balanço e o roteiro é o mesmo de sempre nesse circo da biotecnologia de capital aberto: caixa sangrando, receita inexistente, e um ensaio clínico de fase 3 vendido como redenção iminente. Os números do prejuízo são apresentados como se fossem virtude, porque na linguagem torta de Wall Street, queimar dinheiro virou sinônimo de "investir em pipeline". Quer dizer, se um padeiro torrasse capital nessa velocidade, estaria falido em três meses; mas se o cara veste jaleco e fala em oncologia de mama, vira herói visionário com múltiplo de receita infinito, já que receita não existe.

Olha, o que se vê aqui é o trial promissor, a molécula esperançosa, a apresentação em conferência médica com slides bonitos. O que ninguém quer enxergar é o que está embaixo do tapete: anos de diluição acionária, rodadas sucessivas de emissão, salários executivos generosos pagos com dinheiro de quem comprou ação acreditando na próxima Pfizer. A engenharia financeira do setor é genial na sua perversidade. Você queima cem milhões por ano, anuncia que está "avançando", emite mais ações, dilui o minoritário, e o ciclo recomeça. O insider sai com bônus, o varejo fica com o mico.

Me diz uma coisa, por que diabos a biotecnologia americana virou esse cassino regulado? A resposta está no arranjo: um FDA que escolhe quem vive e quem morre no mercado, um sistema de patentes que cria monopólios de vinte anos, um Medicare que paga qualquer preço que a indústria pedir, e um mercado de capitais que enxerga aprovação regulatória como bilhete de loteria premiado. Não é capitalismo, é capitalismo de compadrio fantasiado de inovação. A empresa não compete por preço, não compete por eficiência, compete por aprovação burocrática. E quando o regulador é o juiz que decide quem fica bilionário, a fila do lobby vira mais lucrativa que o laboratório.

Há, evidentemente, o argumento sentimental: "mas é câncer de mama, são vidas em jogo". Sim, são. E justamente por isso o teatro precisa ser desmontado. Cada dólar incinerado em uma empresa que talvez nunca entregue um produto é um dólar que não foi para o pesquisador competente, para o laboratório enxuto, para a startup que realmente teria entregue. O capital mal alocado mata pacientes invisíveis, aqueles que não receberam a terapia que poderia ter existido se o sistema premiasse resultado em vez de narrativa. Compaixão sem cálculo econômico vira combustível para quem sabe explorar a compaixão alheia.

E o ensaio de fase 3, esse santo graal? Pode até dar certo. Pode ser que a palazestrant funcione, que o endpoint primário seja atingido, que a ação dispare trezentos por cento num pregão. Pode ser. Mas o ponto não é apostar contra a ciência, é apostar contra a estrutura. Porque mesmo que essa dê certo, dez outras Olemas estão queimando o mesmo dinheiro ao lado, com a mesma promessa, com o mesmo executivo carismático em call trimestral, e nove delas vão evaporar levando o capital de quem confundiu esperança com análise. O agregado é trágico mesmo quando o caso individual é vitorioso.

O investidor brasileiro que olha para esse setor lá fora deveria aprender a lição antes de importar o modelo. Não existe almoço grátis em ensaio clínico, não existe progresso garantido em pipeline, e não existe empresa séria que precise queimar trezentos milhões por ano para "talvez" entregar algo daqui a cinco. Quando o prejuízo é apresentado como conquista, desconfie. Quando a esperança é o ativo principal do balanço, fuja. O resto é literatura de prospecto.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.