A Inseego anunciou os resultados do primeiro trimestre de 2026 com a pompa de quem descobriu a roda. Receita em alta, margens em recuperação, novos contratos, expansão estratégica, o pacote completo que o investidor de fim de tarde adora ler antes do jantar. O problema é que ninguém na imprensa financeira faz a única pergunta que importa quando uma empresa de telecom americana sobe na bolsa em 2026: de onde, exatamente, está vindo essa receita? Porque se a resposta envolve as três letras mágicas BEAD, RDOF ou FCC, então não estamos diante de um caso de sucesso empresarial, estamos diante de mais um capítulo da indústria do dinheiro público disfarçada de inovação privada.
O setor de 5G fixo nos Estados Unidos virou, nos últimos cinco anos, um dos maiores aspiradores de subsídio federal já desenhados pela engenharia política americana. Bilhões de dólares foram despejados em programas de "inclusão digital rural" que, na prática, transferiram recursos do contribuinte para um punhado de fornecedores credenciados que sabem preencher formulário melhor do que projetar antena. A Inseego nada nessas águas há tempos. Quando uma empresa cresce dentro de um mercado capturado por programas federais, chamar isso de expansão estratégica é o mesmo que chamar o filho do prefeito de empreendedor de sucesso quando ele ganha a licitação da merenda.
Olha, o truque é antigo e funciona porque a opinião pública é distraída. Cria-se um problema real, no caso a desigualdade de acesso à banda larga, fabrica-se um programa de subsídio na escala dos bilhões, definem-se requisitos técnicos que apenas três ou quatro fornecedores conseguem atender, e pronto, está montado o cartório. Os números trimestrais aparecem bonitos, o CEO faz entrevista falando em propósito, o analista de banco recomenda compra, e o cidadão americano que pagou a conta com o imposto retido na folha nem fica sabendo que financiou a margem do roteador 5G que ele provavelmente nunca vai usar. A receita que se vê é a da empresa; a riqueza que se destrói no caminho, essa fica invisível por design.
O mais grotesco é a linguagem corporativa que envolve tudo isso. Expansão estratégica. Posicionamento competitivo. Diversificação de portfólio. Traduzindo do dialeto do release para o português dos vivos: contratamos mais lobistas em Washington, ampliamos a presença em editais estaduais e descobrimos um nicho regulatório onde a concorrência não chega porque o custo de entrada burocrático é maior do que o lucro possível. Isso não é mercado, é feudo. E feudo prospera enquanto o senhor da terra mantiver boas relações com a coroa, o que no caso americano significa manter consultor caro no Beltway e doar para os dois lados do Congresso, por precaução.
Quer dizer, há uma diferença abissal entre crescer porque se entrega algo que o consumidor escolheu pagar e crescer porque se entrega algo que o burocrata escolheu comprar com o dinheiro de terceiros. A primeira modalidade é a única forma honesta de gerar riqueza que a humanidade já inventou. A segunda é o mecanismo pelo qual sociedades inteiras se viciam em arranjos onde poucos ganham muito, muitos pagam pouco cada um, e ninguém percebe que a conta total já passou dos zeros que cabem na calculadora. A Inseego pode ter um produto excelente, e provavelmente tem, isso não está em julgamento. O que está em julgamento é a narrativa de que esse resultado trimestral é fruto de mérito puro, quando metade do oxigênio que essa empresa respira sai da boca do contribuinte americano.
Me diz uma coisa, se amanhã o Congresso americano fechar a torneira dos programas de subsídio rural à banda larga, quantos por cento da receita da Inseego sobreviveriam ao próximo trimestre? A resposta a essa pergunta, e não o release otimista de hoje, é o verdadeiro indicador de saúde da companhia. Empresa que precisa do Estado para crescer não é empresa, é departamento terceirizado de programa federal vestindo terno de Wall Street. E quando essa fantasia cair, e ela sempre cai, o investidor de varejo que entrou na onda do crescimento estratégico vai descobrir, tarde demais, que comprou ação de estatal disfarçada pelo preço de empresa de tecnologia.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.