O NAB, um dos quatro pilares do oligopólio bancário australiano, abriu o ano fiscal com números que poderiam sair de qualquer relatório dos últimos cinco anos: receita estável dentro do tédio, margem líquida de juros pressionada, custos subindo acima da inflação oficial, provisões para crédito duvidoso engordando devagar. O analista de plantão chama isso de "desempenho misto". O termo correto seria outro: estagnação confortável de quem opera num mercado fechado a cadeado pelo regulador.

Quem olha para o balanço e enxerga "resiliência" está olhando para o lugar errado. A pergunta honesta é por que um banco que enfrenta margem em queda, demanda morna por crédito e inadimplência subindo continua entregando retorno sobre patrimônio que qualquer padaria honesta inveja. A resposta não está na competência da diretoria, está na arquitetura do sistema. Quatro bancos dividem o continente, o banco central sustenta o custo de captação artificialmente baixo, a regulação prudencial transformou barreira de entrada em muralha, e o contribuinte segue como avalista implícito de qualquer trapalhada futura. Lucro privatizado, risco socializado, é o cardápio fixo do capitalismo de compadrio.

Olha, a margem comprimida é o sintoma mais interessante do balanço, e ninguém quer falar sobre isso. Ela aperta porque a festa monetária dos últimos quinze anos finalmente começa a cobrar pedágio. Quando o crédito é fabricado por decreto e os juros são empurrados para baixo do que a poupança real do país suporta, vem o boom de hipoteca, vem a bolha imobiliária australiana que todo mundo finge não enxergar, e vem depois a ressaca que aparece nas provisões. O que se vê é o lucro do trimestre. O que não se vê é a próxima geração de devedores que comprou casa de um milhão e meio porque o sistema os convenceu de que era racional, e agora descobre que não era.

Me diz uma coisa, em que outro setor da economia uma empresa pode entregar trimestre morno, demitir milhares ao mesmo tempo, ser multada de tempos em tempos por má conduta, e ainda assim ver a ação subir porque o dividendo está garantido? Em nenhum, exceto onde existe captura regulatória madura. O NAB foi pego em escândalos seriais nos últimos anos, fee for no service, lavagem, manipulação de taxa, e a punição é sempre a mesma: multa que cabe num trimestre, manchete que dura uma semana, e a vida segue. O acionista bate palma porque o regulador, paradoxalmente, é o melhor amigo do oligopólio que finge regular.

O detalhe que o release esconde no rodapé é o aumento da provisão. Provisão crescente em ambiente de pleno emprego oficial significa uma de duas coisas: ou o emprego oficial não é tão pleno quanto a estatística vende, ou as famílias estão com a corda no pescoço mesmo trabalhando. Nos dois casos, a conclusão é a mesma. A prosperidade construída sobre crédito barato e imóvel inflacionado é miragem, e quando a miragem evapora, quem paga não é o banco, é o cliente que assinou trinta anos de hipoteca achando que estava comprando segurança quando estava comprando servidão.

Resultado misto, dizem. Resultado previsível, eu diria. Enquanto existir um arranjo em que quatro bancos dividem um continente sob proteção regulatória, dinheiro barato fabricado pelo banco central e garantia implícita do contribuinte, o trimestre será sempre mais ou menos esse. Nem brilhante para incomodar o Parlamento, nem catastrófico para forçar reforma. Mediocridade rentável é o produto final do capitalismo administrado, e o NAB acaba de entregar mais uma unidade da linha de produção.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.