A Sojitz, uma das sogo shosha que sustentam o mito da eficiência corporativa japonesa, fechou o quarto trimestre fiscal de 2025 abaixo das previsões dos analistas, e o pregão de Tóquio reagiu com o mesmo espanto fingido de sempre. Quer dizer, depois de mais de duas décadas de juros artificialmente esmagados pelo Banco do Japão, depois de um iene transformado em cobaia de laboratório monetário, depois de balanços inflados por crédito subsidiado e participações cruzadas que mais parecem feudo do que mercado, alguém ainda se surpreende que o lucro real apareça menor do que a planilha do consenso? O surpreendente seria o contrário.

Olha, a história das tradings japonesas é o caso clínico perfeito do que acontece quando você confunde escala com produtividade. Elas cresceram comprando minas na Austrália, plantações no Brasil, terminais portuários na Indonésia, postos de gasolina na Mongólia, qualquer coisa que pudesse ser empacotada em apresentação de relatório anual com gráficos verdes. Funcionava enquanto o dinheiro era de graça e a commodity subia. Agora que o Federal Reserve forçou o Banco do Japão a sair do esconderijo, que o iene precisou ser defendido na marra e o custo do capital voltou a existir como categoria real, a gordura aparece. E gordura nessas empresas é igual a iceberg, o que se vê no balanço é a parte pequena.

Me diz uma coisa, quem ganhou nas últimas duas décadas com essa farra de capital barato? Não foi o trabalhador japonês, que continua com salário real estagnado desde os anos noventa. Não foi o aposentado, esmagado por uma inflação que finalmente chegou depois de tanto negarem que ela viria. Foi o gestor de fundo soberano, foi o executivo com bônus indexado a EBITDA inflado, foi o banco que financiou a aquisição mirabolante na África com taxa negativa. Siga o dinheiro e você encontra sempre o mesmo arranjo, lucro privatizado na bolha, prejuízo socializado na correção. Quando o resultado vem abaixo das previsões, a conta não chega para quem festejou, chega para quem nunca foi convidado para a festa.

O detalhe que ninguém quer encarar é que o modelo das sogo shosha sobrevive não pela genialidade gerencial, mas pela cumplicidade institucional. Bancos que rolam dívida sem rigor, reguladores que toleram opacidade contábil, fundos de pensão estatais obrigados a comprar ações dessas empresas para sustentar o índice Nikkei como se fosse termômetro de saúde nacional. É capitalismo de compadrio com sushi e gravata, e o resultado é sempre o mesmo, retornos medíocres travestidos de tradição milenar. Quando a maré recua, o que aparece embaixo do quimono não é músculo, é osteoporose financeira.

A lição para quem olha o Brasil é direta. Toda vez que alguém aqui propõe o modelo asiático como ideal, com banco central comprando dívida, BNDES escolhendo campeão nacional, fundo de pensão estatal salvando empresa amiga, lembre-se da Sojitz batendo previsão para baixo num trimestre qualquer de 2025. O caminho da prosperidade não passa por planejador esperto subsidiando exportador conhecido. Passa por moeda confiável, propriedade respeitada e mercado deixado em paz. O resto é teatro caro, e quem paga o ingresso nunca é quem sobe ao palco.

Trimestre fraco da Sojitz não é acidente, é diagnóstico. E o paciente é o modelo inteiro de capitalismo dirigido que tantos por aqui ainda querem imitar.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.