A notícia chega embrulhada no papel celofane de sempre. A Steel Authority of India, gigante siderúrgica controlada pelo governo de Nova Délhi, anuncia resultados robustos no quarto trimestre do ano fiscal 2025-2026, com receita em alta, margens recompostas e produção próxima da capacidade plena. Analistas de banco aplaudem, o índice sobe, e a manchete sugere que se está diante de um caso exemplar de eficiência industrial. Olha, antes de comprar a narrativa pronta, vale recuperar uma pergunta que ninguém em Bombaim faz alto: de onde, exatamente, vem o lucro de uma estatal que opera sob tarifa de importação, contratos preferenciais com obras públicas, energia subsidiada e crédito do banco estatal a juros que nenhum concorrente privado consegue?
O resultado trimestral só faz sentido quando se entende o ecossistema em que ele floresce. A Índia vive um ciclo agressivo de gasto em infraestrutura, ferrovias, corredores logísticos e habitação popular, tudo financiado por endividamento público crescente e por uma máquina tributária que sangra o setor produtivo para irrigar contratos com fornecedores escolhidos a dedo. A SAIL é, antes de ser uma empresa, uma engrenagem dessa máquina. Quando o governo decide construir, ele compra de si mesmo, paga a si mesmo, e depois publica orgulhoso que a empresa estatal teve um trimestre brilhante. É o equivalente industrial de tirar dinheiro do bolso esquerdo, colocar no direito e celebrar o enriquecimento.
Quer dizer, o que se vê é o balanço positivo, a produção de aço bruto subindo, o EBITDA recomposto. O que não se vê é o produtor privado de aço que não consegue competir porque a estatal vende abaixo do custo real quando o governo precisa segurar preço, e acima do preço internacional quando o governo precisa do dividendo. Não se vê o contribuinte indiano financiando, via imposto, a energia barata que alimenta os altos-fornos. Não se vê o consumidor final pagando mais caro pelo automóvel, pela geladeira, pelo vergalhão da casa, porque a tarifa de importação protege a ineficiência que ninguém ousa medir. Toda vez que uma estatal anuncia lucro, há uma fila silenciosa de pagadores invisíveis sustentando a festa.
Há ainda a coreografia política que precisa ser nomeada. Empresas como a SAIL existem para cumprir função dupla: gerar manchete favorável ao governo e empregar, em cargos de direção, a casta burocrática que circula entre ministério, conselho de administração e regulador. É o mesmo arranjo que se viu na Petrobras durante décadas, na Eletrobras antes da privatização parcial, nas siderúrgicas chinesas que sustentam o partido com lucro contábil enquanto a dívida real é jogada para os bancos públicos engolirem. A diferença é apenas o sotaque do funcionário que assina o press release.
E há a questão que economista de banco jamais formula, porque depende dela para o próximo relatório de cobertura: se a SAIL fosse obrigada a competir sem tarifa, sem energia subsidiada, sem crédito político e sem comprador cativo, ela existiria? A resposta honesta é constrangedora. O cálculo econômico só funciona quando preços são reais, quando capital tem custo verdadeiro e quando o consumidor pode dizer não. Tudo isso está suspenso no caso de uma estatal protegida. O que se chama de lucro é, na verdade, uma transferência disfarçada de patrimônio, do bolso de quem produz para o bolso de quem administra.
Comemorar o resultado da Steel Authority é comemorar o sucesso da própria coleira. O aço sai do alto-forno, sim, e os números sobem, sim, mas a fatura está sendo paga em parcelas que aparecerão no imposto do próximo ano, na inflação do próximo trimestre, no concorrente privado que fechou as portas sem fazer barulho. Toda vez que um governo aplaude a si mesmo através de uma empresa que ele criou, financia e regula, está pedindo que o cidadão acredite no mais antigo dos truques: o de que existe almoço grátis quando alguém de farda ou paletó oficial está servindo.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.