O Dollar General publica balanço numa semana em que o índice de confiança do consumidor americano desaba para um dos piores patamares já medidos, e a coincidência não é coincidência, é diagnóstico. Quando a rede de lojas que sobrevive vendendo produto barato para quem não tem mais o que cortar do orçamento entrega resultado robusto, isso não é triunfo do varejo, é radiografia de uma população empobrecida. A bolsa comemora o earnings beat, o analista de banco escreve relatório elogioso, e ninguém para para perguntar a coisa óbvia: por que justamente a loja do dólar prospera enquanto Target e Walmart penam? Porque o consumidor que antes comprava na classe média agora compra na classe que sobrou.
O índice de confiança não despencou por acaso, e nem é fruto de pessimismo cultural ou desinformação, como gostam de sugerir os comentaristas que confundem inflação com fatalidade meteorológica. O americano comum sabe perfeitamente o que aconteceu, ele apenas não tem permissão para dizer em voz alta. Trilhões de dólares impressos durante a pandemia, gastança fiscal bipartidária que não terminou nunca, juros mantidos artificialmente baixos durante uma década inteira, e depois o ritual obrigatório de fingir surpresa quando o preço do ovo dobra. A confiança caiu porque a realidade cobrou. Não existe almoço grátis, existe almoço pago em parcelas invisíveis que vencem todas ao mesmo tempo.
Olha, a história econômica é generosa em exemplos para quem quer aprender, e avara em desculpas para quem prefere repetir. Toda vez que um governo decidiu que podia financiar o presente confiscando o futuro pela impressora, o resultado foi o mesmo: a classe média encolhe, o pobre afunda, e o rico migra o patrimônio para ativos reais antes que os outros entendam o que está acontecendo. O sujeito que tinha dinheiro em ação, imóvel e ouro passou ileso. O sujeito que tinha salário e poupança apanhou de graça. E aí o mesmo governo que causou o estrago aparece prometendo programa de auxílio, congelamento de preço, controle de aluguel, qualquer coisa que distraia a vítima de identificar o agressor.
Quer dizer, o Dollar General virou o que virou porque alguém precisava ser o varejo do empobrecimento estrutural americano, e quando a oportunidade apareceu, o mercado, esse sistema que os planejadores adoram acusar de cruel, simplesmente respondeu à demanda real. Existe gente comprando shampoo em embalagem menor porque a embalagem grande saiu do orçamento. Existe família trocando carne por enlatado. Existe aposentado escolhendo entre remédio e conta de luz. Nada disso aparece no PIB, nada disso aparece no discurso da Casa Branca, mas tudo isso aparece no faturamento de quem vende barato para quem não pode mais pagar caro. O lucro do Dollar General é a tradução numérica de um país que está fingindo bem-estar enquanto racionaliza miséria.
Me diz uma coisa, alguém ainda acredita que o problema vai ser resolvido pelos mesmos sujeitos que o criaram? Banqueiro central que passou três anos jurando que a inflação era transitória agora promete combater a inflação que ele mesmo fabricou, e quer aplausos pelo combate. Político que aprovou pacote de gastos atrás de pacote de gastos agora descobre, comovido, que o povo está apertado, e propõe novo pacote para aliviar o aperto que o pacote anterior provocou. Em qualquer outra atividade humana, esse nível de incompetência reincidente custaria o emprego. Em política monetária e fiscal, rende livro de memórias e cátedra em Harvard.
A lição, para quem ainda quiser ouvir, é simples e desagradável. Confiança do consumidor não se restaura com propaganda nem com programa social, restaura-se com moeda honesta, gasto público contido e respeito pela propriedade do cidadão que trabalha. Enquanto o remédio for mais do veneno, a loja do dólar continuará crescendo, porque ela é o sintoma visível de uma doença que ninguém em posição de poder tem coragem de nomear. O americano médio parou de acreditar no próprio bolso porque o bolso parou de ser dele faz tempo. Quando a moeda mente, o consumidor cala, e a única coisa que ainda fala a verdade é o caixa do Dollar General.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.