A Saputo, uma das maiores processadoras de laticínios do planeta, divulgou resultados do quarto trimestre fiscal abaixo das expectativas dos analistas, e o mercado reagiu com aquela cara de espanto fingido que todo investidor experiente já aprendeu a desconfiar. Quer dizer, a empresa opera em quatro continentes, lida com leite, queijo e proteína, insumos cujos preços são fixados em mercados manipulados por subsídios agrícolas, tarifas, cotas, intervenções monetárias e bancos centrais que decidem por decreto quanto vale o dinheiro de amanhã. E ainda assim alguém se surpreende quando a margem aperta.

Olha, ninguém precisa ser gênio para entender o que acontece quando você expande crédito artificialmente por uma década, joga trilhões em estímulo durante a pandemia e depois sobe juros num puxão para tentar segurar a inflação que o próprio banco central fabricou. Empresas de margem fina, e processadora de laticínios é o exemplo de manual, vivem do diferencial entre o preço do insumo e o preço final ao consumidor. Quando o custo do leite cru sobe puxado pela inflação monetária, mas o varejo pressiona para segurar o preço da prateleira porque o consumidor empobrecido não aguenta mais, alguém paga a conta no meio do caminho. E quem paga é justamente a empresa que aparece nos resultados trimestrais com lucro abaixo do consenso.

Me diz uma coisa, por que o tal consenso dos analistas erra com tanta frequência justamente nos momentos em que o ambiente macroeconômico está distorcido por intervenção estatal? Porque o consenso é feito por modelos que pressupõem mercados funcionais, preços que refletem realidade, moeda que conserva valor e demanda que segue lógica. Tira qualquer uma dessas premissas e o modelo vira ficção científica. A Saputo não decepcionou, decepcionou foi o modelo que projetou um trimestre dentro de um mundo que já não existe há muito tempo, se é que existiu algum dia naquele formato.

Siga o dinheiro e a história fica ainda mais clara. Canadá tem um dos sistemas de gestão da oferta de leite mais protecionistas do mundo ocidental, com cotas, tarifas absurdas para importação e preços administrados que beneficiam um cartel de produtores politicamente organizados. Nos Estados Unidos, a indústria laticínia bebe há décadas de subsídios federais que distorcem oferta e demanda em escala industrial. Na Argentina e no Brasil, controle cambial, tributação confiscatória e instabilidade monetária transformam planejamento empresarial em exercício de futurologia. A Saputo opera dentro desse labirinto regulatório global, e o investidor que acha que vai ler nos resultados trimestrais a verdadeira saúde do negócio está olhando para a sombra na parede da caverna, não para o que projeta a sombra.

O que se vê é uma linha de receita abaixo do esperado e analistas recalibrando planilha. O que não se vê é a multidão de pequenos produtores rurais quebrados pelo cartel regulatório, o consumidor pagando caro pelo queijo porque a tarifa protege o produtor doméstico ineficiente, o capital que deixou de ser investido em modernização porque a margem foi corroída pela inflação, e o sinal de preço destruído por décadas de intervenção que faz com que ninguém mais saiba realmente quanto custa produzir um litro de leite num mercado de verdade. A Saputo é apenas o termômetro que o mercado finge não saber ler.

No fim, resultado trimestral abaixo do esperado não é tragédia empresarial, é radiografia de um sistema. Enquanto os bancos centrais brincarem de deus com a moeda, os governos tratarem agricultura como feudo eleitoral e os analistas continuarem fingindo que dá para projetar lucro futuro em ambiente de planejamento central disfarçado de livre mercado, vamos seguir vendo essas surpresas que nada têm de surpreendentes. Empresa séria entrega o que consegue dentro da camisa de força que lhe vestiram. O resto é teatro de planilha.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.