O Web Travel Group, braço de viagens corporativas e B2B desgarrado da antiga Webjet, fechou o ano fiscal de 2026 com números que envergonhariam qualquer plano quinquenal de fomento ao turismo. Crescimento de receita, expansão de volume transacionado nas plataformas, margens preservadas num setor que, segundo a sabedoria convencional dos congressos de economistas, deveria estar em coma pós-pandêmico permanente. A pergunta que ninguém faz no Valor Econômico é simples: como uma empresa cresce sem que um deputado tenha gravado vídeo ao lado do CEO anunciando "parceria estratégica"?
A resposta incomoda porque é entediante. A Austrália, com todos os seus defeitos regulatórios, ainda permite que uma operadora de viagens conecte hotéis e agências sem precisar de quarenta e duas certidões negativas, sem ANAC opinando sobre algoritmo de busca, sem ministério do turismo exigindo cota de destinos prioritários. Você acha pouco? Compare com qualquer agência brasileira tentando crescer enquanto o ICMS muda de alíquota a cada três meses e o programa de milhas vira pauta de CPI sempre que algum populista precisa de palco. O que se vê nos balanços do Web Travel é resultado direto do que não se vê: a ausência relativa de tutela.
Olha, o setor de turismo é o laboratório perfeito da tese liberal porque é frívolo o suficiente para o Estado se desinteressar parcialmente, e ao mesmo tempo capilarizado o suficiente para que qualquer fricção burocrática apareça no preço final. Quando o Web Travel digitaliza o B2B, ele está fazendo o que o sistema de preços sempre fez: agregar conhecimento disperso entre milhões de viajantes, hoteleiros e agentes, em tempo real, sem que nenhum comitê de planejamento tenha decidido quantas diárias devem existir em Bali no terceiro trimestre. Nenhum burocrata em Brasília, Camberra ou Bruxelas tem essa informação, e é exatamente por isso que toda vez que tentam organizar o setor, organizam o desastre.
Me diz uma coisa, por que ninguém comemora isso na imprensa brasileira? Porque crescimento orgânico de empresa privada estrangeira não rende manchete patriótica, não permite foto de inauguração, não justifica verba publicitária. A imprensa econômica daqui só sabe celebrar dois fenômenos: anúncio de aporte estatal e quebra de empresa privada, ambos servindo à mesma narrativa de que o mercado precisa de adulto na sala. O adulto, no caso, é sempre o mesmo sujeito que torrou trinta anos de Embratur sem colocar o Brasil nem entre os vinte destinos mais visitados do planeta.
Siga o dinheiro e a fábula desmorona. Quem ganha com o crescimento do Web Travel? Acionistas, funcionários, hotéis parceiros, agências menores que usam a plataforma, e por fim o consumidor que paga menos por viajar. Quem ganharia se o mesmo volume fosse intermediado por uma estatal de fomento ao turismo? O gestor político de plantão, a empreiteira que construiria a sede, o sindicato que negociaria o reajuste, e o lobista que garantiria que o concorrente privado pagasse imposto extra para "nivelar o campo". A diferença entre os dois arranjos não é técnica, é moral, e qualquer pessoa que tenha lido três páginas de jornal nos últimos quarenta anos sabe disso, ainda que finja não saber.
O resultado australiano não é milagre nem genialidade gerencial extraordinária. É a coisa mais banal do mundo: gente competente trabalhando num ambiente onde o Estado ainda não descobriu como atrapalhar com sofisticação suficiente. Enquanto isso, o Brasil discute se Uber é vínculo empregatício, se Airbnb deve recolher ISS retroativo, e se a próxima reforma tributária vai criar mais quatro siglas no boleto da passagem. Não é falta de empreendedor que nos atrasa. É excesso de tutor.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.