Existe uma certa ironia selvagem no fato de que um desenvolvedor precisou criar um videogame para que as gerações mais jovens entendam como era trabalhar numa locadora de vídeo. Não porque esse mundo fosse distante ou exótico, mas porque ele foi varrido do mapa em menos de uma década, com uma velocidade que nem as guerras costumam ter. Retro Rewind, o jogo em questão, recria com fidelidade irritante aquela liturgia dos anos 90: organizar fitas por gênero, atender clientes mal-humorados, carimbar devolução, checar se a fita foi rebobinada. É repetitivo. É charmoso. E diz mais sobre o que a chamada "disrupção tecnológica" destruiu do que qualquer análise econômica jamais conseguiu.
A locadora de vídeo era, antes de tudo, uma instituição local. Tinha dono com nome, funcionário que conhecia seu gosto, prateleira de lançamentos disputada às sextas-feiras, aquela seção de terror mal iluminada que assustava as crianças. Era um ecossistema vivo, cheio de imperfeições e de humanidade. O que substituiu isso foi um catálogo global administrado por algoritmo, onde sua escolha já está sendo usada para vender anúncio antes mesmo de você apertar o play. Trocamos o atendente que conhecia seu nome por um sistema de recomendação que conhece seus medos. Fizeram isso soar como progresso.
O que o jogo captura, quase sem querer, é a dignidade do trabalho repetitivo. Rebobinar uma fita, etiquetar uma caixa, organizar uma prateleira por ordem alfabética, são tarefas sem glamour nenhum, mas que exigem presença, atenção e responsabilidade. Num mundo onde toda tarefa que não escala para bilhões de usuários é descartada como ineficiente, há algo subversivo em celebrar o trabalho miúdo. A locadora não escalou. E foi exatamente por isso que ela funcionou no bairro, para aquelas pessoas, naquele contexto. Escalabilidade não é virtude, é uma obsessão de quem confunde humanidade com planilha.
Claro que o jogo não vai além da superfície. A crítica da Ars Technica aponta que lhe falta complexidade, e está certa no sentido técnico. Mas talvez a ausência de profundidade seja precisamente o ponto. A locadora também não tinha profundidade algorítmica. Tinha prateleira, fita e gente. O mérito de Retro Rewind está em ser deliberadamente simples numa época em que simplificar é tratado como limitação intelectual. Quem nunca trabalhou numa locadora vai achar graça. Quem trabalhou vai sentir uma pontada que não é bem saudade, é reconhecimento.
Há algo de confissão involuntária no fato de que precisamos de um jogo para preservar essa memória. As locadoras não fecharam porque as pessoas pararam de gostar de filmes, fecharam porque um modelo de negócio financiado com capital de risco, disposto a operar no prejuízo por anos a fio, tornou impossível a concorrência do pequeno. Isso não foi o mercado livre falando, foi o capital concentrado sufocando o pequeno comerciante com a cumplicidade silenciosa de quem regula e de quem narra a história como inevitável. "Era a evolução natural", repetiram. Toda vez que bilionário destrói concorrente menor, alguém chama de evolução.
Retro Rewind não vai mudar nada. Vai render algumas horas de nostalgia para quem tem mais de trinta anos e algumas horas de curiosidade para quem tem menos. Mas existe um mérito silencioso em qualquer obra que olha para o passado não com romantismo idiota, mas com a honestidade de dizer: havia algo de bom ali, e nós permitimos que sumisse sem sequer debater direito. A locadora de bairro foi um pequeno nó de cultura local, de escolha humana, de acaso criativo. O algoritmo que a substituiu não recomenda acidente, recomenda o que você já quer ver. E um homem que só vê o que já quer ver não está sendo servido, está sendo administrado.
Com informações da Ars Technica. A análise e opinião são do O Algoz.