Nikolay Storonsky, o homem por trás do Revolut, está prestes a transformar fichas de pôquer em ouro: se a abertura de capital sair como ele planeja nos próximos dois anos, o banco digital será avaliado em quase 200 bilhões de dólares, e a fatia do fundador valerá algo como 76 bilhões. Para efeito de comparação, isso é mais do que vale boa parte dos bancos centenários da Europa juntos, instituições que financiaram guerras, revoluções industriais e a reconstrução do velho continente. O Revolut, por sua vez, financia almoço dividido entre amigos e cashback em compras de aeroporto. Algo está fora de lugar nessa conta, e não é a calculadora.

Olha, ninguém aqui está dizendo que o produto é ruim. O Revolut funciona, atende dezenas de milhões de clientes e oferece serviços que os bancos tradicionais demoraram décadas para sequer cogitar. O ponto é outro: como uma fintech de pouco mais de dez anos de existência chega a uma avaliação que faz o JP Morgan parecer uma cooperativa de bairro? A resposta não está no balanço da empresa, está no andar de cima, na sala onde se decide quanto custa o dinheiro. Quando os bancos centrais inundaram o planeta com liquidez durante quase quinze anos, todo ativo de tecnologia foi reprecificado para cima. Não porque ficou melhor, mas porque o numerário ficou pior.

Quer dizer, a fortuna potencial de Storonsky não é fruto exclusivo do talento empreendedor dele, e ele provavelmente sabe disso melhor do que qualquer crítico. É também o subproduto direto de uma era em que dinheiro custou zero, em que poupador foi tratado como otário e em que qualquer narrativa com a palavra "disrupção" conseguia atrair bilhões em capital de risco. Siga o dinheiro: ele saiu do bolso de quem guardou poupança a juros negativos reais, atravessou os fundos de pensão atrás de rendimento, foi parar em venture capital, e desaguou em valuations que só fazem sentido num mundo onde a régua do valor foi quebrada pelo próprio fabricante da régua.

Me diz uma coisa: o que acontece quando o Revolut precisar justificar 200 bilhões com lucro real, e não com promessa de crescimento eterno? A história tem o hábito chato de se repetir nesses casos. Em 1999, empresas de internet abriam capital com avaliações estratosféricas baseadas em "olhos" e "cliques". Em 2008, instrumentos financeiros estruturados valiam fortunas porque ninguém entendia direito o que continham. O ciclo é sempre o mesmo: crédito artificialmente barato infla ativos, todo mundo finge que descobriu uma nova era da economia, e quando a maré recua descobre-se quem estava nadando pelado. Os 76 bilhões do fundador são um número virtual ancorado num mercado que ainda precisa provar que o IPO sai pelo preço sonhado.

Há ainda o detalhe ignorado pela cobertura entusiasmada: bancos digitais como o Revolut prosperaram não apenas por inovação, mas por arbitragem regulatória. Enquanto bancos tradicionais carregam o fardo de regras desenhadas para proteger depositantes desde a Grande Depressão, as fintechs operaram durante anos numa zona cinzenta confortável, com exigências menores de capital, supervisão mais frouxa e licenças bancárias obtidas em jurisdições convenientes. Não é vilania, é racionalidade econômica diante do incentivo dado pelo Estado. Mas é bom lembrar que parte da margem que sustenta esse valuation vem dessa diferença regulatória, não de uma superioridade tecnológica absoluta.

O sucesso de Storonsky é real, o produto é bom, e ele merece ficar rico pelo que construiu. O problema não é ele; o problema é o termômetro. Quando a impressora de dinheiro vira política pública permanente, quando o custo do capital é decidido por comitê em vez de descoberto pelo mercado, qualquer número fica plausível e nenhum número é confiável. Os 76 bilhões podem virar 30, virar 10, virar fumaça, ou de fato se concretizar, e o que isso revela não é sobre o Revolut, é sobre nós: vivemos numa economia em que ninguém mais sabe quanto vale o que tem na mão, porque o padrão de medida foi corrompido na origem. Fortunas construídas sobre dinheiro fabricado têm a consistência exata do material que as sustenta.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.