A Revolution Medicines acaba de receber da FDA autorização de acesso expandido para sua pílula experimental contra câncer de pâncreas, e a manchete é vendida como ato de bondade do regulador americano. Olha, me diz uma coisa, desde quando permitir que um doente terminal tente uma droga que talvez salve sua vida virou favor de burocrata? O câncer de pâncreas mata mais de 90% dos diagnosticados em cinco anos. O paciente não tem tempo para esperar o ritual completo de fases clínicas que custa bilhões e consome uma década. E mesmo assim, durante décadas, a única resposta institucional para quem batia na porta da agência pedindo uma chance foi um educado "aguarde os ensaios randomizados".

O que se vê é a notícia bonita: a agência foi flexível, a empresa foi competente, a ciência avança. O que não se vê é a fila invisível de mortos que não chegaram a 2026 porque o mesmo aparato regulatório que hoje libera com pompa, ontem trancava com zelo. Cada mês a mais que uma molécula promissora passa em compliance é um cemitério a mais de pessoas que tinham nome, família e conta a pagar. A burocracia sanitária se apresenta como protetora do paciente, mas a conta dos protegidos pelo excesso de cautela nunca aparece no relatório anual da agência. Convenientemente.

Siga o dinheiro e a coisa fica mais clara. O processo de aprovação convencional custa de um a três bilhões de dólares por droga, número que efetivamente exclui qualquer concorrente que não seja gigante farmacêutico com capacidade de absorver anos de queima de caixa. A regulação pesada não é inimiga das big pharmas; é o fosso que protege as big pharmas da concorrência. Startups morrem na fase 2, laboratórios menores nunca chegam ao mercado, e a agência se vangloria de "rigor". O rigor, na prática, é cartel de fato com selo oficial. Quando finalmente um programa de acesso expandido é concedido, é porque a pressão política e o lobby do paciente furaram o cerco, não porque o sistema funcionou.

Tem ainda o componente moral, que ninguém quer discutir em mesa redonda de bioética. De que tamanho é a arrogância de um comitê em Maryland que decide, em nome do paciente terminal de Nebraska, que ele não pode tentar uma pílula porque os dados de eficácia ainda estão sendo coletados? O sujeito está morrendo. Ele assina qualquer termo de consentimento. Ele aceita o risco. E ainda assim alguém de jaleco e gravata determina que a vida dele pertence ao protocolo, não a ele. Isso não é proteção, é tutela. E tutela imposta sobre adulto capaz, em assunto de vida ou morte, tem outro nome menos simpático na história das ideias políticas.

O caso da Revolution Medicines deveria ser comemorado, sim, mas pelo motivo certo: é uma fissura no muro. É a prova de que o muro não precisava existir do tamanho que existe. Cada vez que um programa de acesso expandido funciona, cada vez que um paciente terminal toma uma droga ainda não totalmente aprovada e sobrevive ou ganha meses de qualidade, o argumento da cautela infinita perde uma perna. O que precisamos não é de mais um programa especial gerido pelo mesmo aparato; precisamos de um aparato menor, mais humilde, que reconheça que o dono do corpo é o paciente, não a agência. Enquanto isso não acontece, festeja-se a esmola e ignora-se o roubo.

A medicina avança apesar do regulador, não por causa dele. E todo dia que demora para a próxima molécula chegar à mesa de cabeceira de quem está morrendo é um dia em que a burocracia mata em silêncio, com a consciência tranquila de quem nunca precisou olhar nos olhos do morto que ela criou.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.