A Revvity, aquela nascida do espólio da PerkinElmer depois que picotaram a empresa em pedaços para agradar acionista, anunciou a compra da francesa Human Cell Design, uma startup de Toulouse especializada em modelos celulares para pesquisa metabólica, sobretudo diabetes e doenças hepáticas. O comunicado veio embrulhado no papel de presente de sempre, sinergia, plataforma expandida, aceleração de descobertas, esse vocabulário de sala de reunião que traduzido para o português comum significa uma coisa só, não estávamos conseguindo fazer isso sozinhos e saía mais barato comprar quem estava.

Repare no padrão, porque ele se repete há três décadas no setor farmacêutico com a monotonia de um relógio suíço. O laboratório grande gasta bilhões em marketing, distribui dividendos generosos, recompra ações para inflar o próprio papel, e quando o pipeline seca, vai às compras. A pesquisa de verdade, aquela suja, incerta, feita por três franceses num galpão em Toulouse com dinheiro escasso e apostando o próprio nome, essa acontece longe dos conselhos de administração. O gigante só aparece no final, com o talão de cheques, para colar o logo no que já estava pronto e vender como conquista própria.

Aqui é onde a coisa fica interessante e ninguém no release quer que você olhe. Quem financiou originalmente a Human Cell Design? Programa francês de fomento, capital semente com incentivo fiscal, participação de fundos que só existem porque o Estado subsidia venture capital em biotech como parte da estratégia industrial europeia. Ou seja, o contribuinte francês bancou o risco, comeu o prejuízo dos anos em que a empresa não gerava um centavo, e agora que o ativo está maduro, a americana chega, escreve um cheque, leva a tecnologia para Boston e o retorno econômico segue para os acionistas em Massachusetts. É a socialização do risco com privatização do lucro em versão transatlântica, e ninguém acha estranho porque virou paisagem.

Enquanto isso, quem sofre com diabetes tipo 2 no Brasil, na Argentina, na Nigéria, segue esperando. Os modelos celulares que a Revvity acaba de comprar aceleram a pesquisa em laboratório, isso é fato, mas o funil até o medicamento chegar barato no balcão da farmácia continua entupido pelo mesmo sistema de patentes eternizadas, agências reguladoras capturadas pelos regulados, e um circuito de aprovação desenhado para favorecer quem tem mil advogados em Washington e Bruxelas. A tecnologia avança na velocidade da luz, o remédio chega na velocidade da carroça, e essa distância não é acidente, é modelo de negócio.

Quer dizer, celebra-se a inovação como se fosse gratuita quando na verdade ela é o produto de uma engrenagem que privatiza descobertas nascidas em berço público e depois cobra o dobro para devolver ao mesmo público que pagou o berço. A imprensa especializada aplaude porque vive de anúncio de farmacêutica. Os governos aplaudem porque o setor emprega gente com salário alto que vota. E o paciente, que é o único que devia importar em toda essa cadeia, aparece só na estatística de mortalidade quando algum estudo resolve incomodar.

A aquisição vai fechar, a integração vai ser anunciada em coletiva, os analistas de Wall Street vão dar target price atualizado, e daqui a três anos alguém vai lançar um kit diagnóstico caríssimo cujo princípio ativo saiu daquele galpão em Toulouse. Chamarão isso de progresso. É outra coisa, mas o nome verdadeiro dá trabalho pronunciar em público.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.