A Rewe, segundo maior grupo varejista da Alemanha, está sondando bancos para vender ou abrir o capital da Penny na Itália, uma operação com cerca de quatrocentas lojas que nunca deslanchou e que agora vira peso morto no balanço. A justificativa oficial fala em "desafios do varejo", aquela expressão genérica que executivos usam quando não podem dizer a verdade em voz alta. A verdade é que ninguém atravessa o oceano de regulações italianas, encargos trabalhistas, complexidade tributária e burocracia municipal para vender batata e papel higiênico com margem de dois por cento. Quem tenta, sai pela porta dos fundos depois de anos torrando capital alemão para sustentar a fantasia de "expansão europeia".
Olha, o varejo de desconto é o termômetro mais honesto que uma economia possui. Quando ele cresce, é porque a classe média está empobrecendo e migrando para o básico. Quando ele recua mesmo em país empobrecido, é porque até o básico ficou caro demais para operar. A Itália vive os dois fenômenos simultaneamente, e isso não é um acidente de mercado, é o resultado previsível de décadas de gastança pública financiada por dívida, sindicalismo travado em 1975, e uma máquina estatal que cobra como se fosse Suíça e entrega como se fosse Albânia. O consumidor italiano não está pobre porque o capitalismo falhou, está pobre porque o capitalismo nunca foi deixado em paz para funcionar.
Quer dizer, observe o arranjo: a Rewe entrou na Itália achando que escala alemã venceria o atrito local. Errou feio. Cada loja nova exigia licença municipal, cada contratação carregava encargos que dobravam o salário nominal, cada reajuste de preço dependia de negociação coletiva nacional, cada fornecedor local operava dentro de uma cadeia já capturada por regulações regionais que protegem o pequeno comerciante "tradicional" contra o concorrente eficiente. O resultado dessa proteção bem intencionada é o que sempre foi: o consumidor pobre pagando mais caro para sustentar o ineficiente, enquanto o eficiente desiste e vai embora. O que se vê é a Penny saindo. O que não se vê são os preços que os italianos vão continuar pagando porque a Penny saiu.
E aqui mora a parte que ninguém em Bruxelas quer comentar. A Europa inteira está numa espiral de "consolidação" varejista que é eufemismo para fechamento de operações marginais incapazes de absorver custos energéticos inflados pela política verde, custos trabalhistas inflados pela política social, e custos regulatórios inflados pela política industrial. Os mesmos governos que aprovam diretivas climáticas absurdas, salários mínimos artificialmente altos, e cotas obrigatórias de tudo quanto é coisa, depois fingem espanto quando descobrem que ninguém consegue mais vender pão barato. A culpa, claro, será atribuída ao "modelo de negócio", à "concorrência do e-commerce", à "mudança no comportamento do consumidor". Qualquer coisa, menos a causa real, que está sentada no parlamento europeu legislando contra a prosperidade enquanto se aplaude por isso.
A venda da Penny, se acontecer, vai render alguns bilhões de euros para a Rewe e uma manchete morna para os jornais de negócios. O comprador provável é algum fundo de private equity disposto a cortar lojas, demitir gente, fechar contratos e tentar arrancar valor antes que a próxima onda regulatória mate o que sobrou. É o ciclo conhecido: o capital paciente alemão desiste, o capital impaciente americano entra para extrair, e no final o consumidor italiano fica com menos opção e preço mais alto. Chamam isso de "dinâmica de mercado". Nome mais honesto seria "consequência inevitável de quem trata empreendedor como suspeito e funcionário público como sagrado".
Repare bem, porque a lição é universal. Toda vez que um conglomerado robusto, com caixa, escala e décadas de experiência, decide abandonar um mercado inteiro, não é fracasso empresarial, é veredito sobre o ambiente. A Penny não morreu na Itália porque vendia mal, morreu porque vender ali deixou de ser viável. E enquanto o noticiário tratar isso como problema de varejo, em vez de problema de civilização que escolheu sufocar quem produz para alimentar quem regula, a Europa vai continuar empobrecendo com ar de surpresa. A conta da generosidade alheia sempre chega, e desta vez chegou na prateleira do supermercado.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.