A RHI Magnesita Índia anunciou receita recorde no quarto trimestre fiscal de 2026, e a notícia, que deveria ser comemorada nos corredores da operação brasileira, soa mais como um atestado de óbito anunciado. A mesma empresa que tem em Contagem, Minas Gerais, uma das maiores plantas de refratários do planeta, encontrou na Índia o terreno fértil que o Brasil insiste em pavimentar com lama regulatória. Não é coincidência. É escolha. E escolha de quem mora aqui, vota aqui e finge não entender por que o capital foge daqui.

Quer dizer, a Índia destravou demanda industrial brutal porque alguém lá decidiu que aço, cimento, vidro e cerâmica não são pecado capital. No Brasil de 2026, abrir uma fábrica desse porte significa enfrentar tarifa de energia que faz o industrial chinês cair na gargalhada, ICMS que muda conforme o estado e o humor do secretário, licenciamento ambiental que demora mais que doutorado, e uma reforma tributária que, prometida como simplificação, virou um Frankenstein de alíquotas e exceções que só o lobista de Brasília consegue decifrar.

Olha, segue o dinheiro e a história se conta sozinha. A Índia oferece previsibilidade, mão de obra abundante, energia subsidiada pelo carvão que ninguém ousa criticar lá, e um ambiente onde o industrial sabe quanto vai pagar de imposto no ano que vem. Aqui, o industrial não sabe nem quanto vai pagar no mês que vem. E aí o sujeito sentado no conselho da multinacional faz a conta básica que qualquer aluno de primeiro semestre faria, decide expandir onde o retorno é maior, e o tucano da Faria Lima aparece na TV chorando "desindustrialização" como se fosse fenômeno meteorológico, fatalidade do destino, coisa que cai do céu.

Não cai do céu. É fabricada todo dia, no Congresso, no Planalto, nos tribunais superiores que reinterpretam contratos a cada eleição, nas agências reguladoras capturadas por quem deveriam fiscalizar. O capital tem memória e tem passaporte. Quando um país transforma a atividade produtiva em via crucis e a renúncia fiscal em loteria política, o capital vai embora, e leva junto o emprego do operário, o ICMS que financiaria a escola, o IPTU que pagaria o asfalto. Sobra a retórica de soberania nacional declamada por quem nunca produziu um parafuso na vida.

O mais delicioso é a ironia austríaca disfarçada de notícia indiana. A RHI Magnesita é europeia, opera globalmente, e escolhe Mumbai em vez de Minas porque a planilha não mente, ainda que o discurso oficial minta o tempo todo. Enquanto os arautos do desenvolvimentismo defendem mais BNDES, mais incentivo setorial, mais "política industrial inteligente", a realidade lá fora segue a regra que nunca falha: onde há liberdade econômica, há investimento; onde há intervenção crônica, há fuga. Não tem teoria nova, não tem invenção econômica milagrosa, não tem terceira via. Tem aritmética.

E quando o quarto trimestre de 2027 chegar, e a Índia bater outro recorde, e Contagem aparecer no noticiário por demissão em massa ou pedido de recuperação judicial, prepare-se para o mesmo coro de sempre culpando o "mercado", o "capital especulativo", o "neoliberalismo", qualquer coisa menos quem realmente segura a tesoura. O Brasil não está perdendo a indústria por azar. Está perdendo porque legislou contra ela durante quarenta anos seguidos, e agora finge surpresa quando o boletim trimestral confirma o óbvio.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.