Onze por cento de crescimento em moeda constante, com a Cartier puxando a fila à custa de pulseiras Love e anéis Trinity que custam mais que o apartamento médio de um assalariado brasileiro. A turma que passou o ano inteiro nos jornais explicando que o consumidor global estava encolhendo, que a inflação tinha matado o luxo, que os juros altos iam estrangular o desejo, agora precisa explicar como uma empresa que vende objetos absolutamente supérfluos cresceu acima da previsão dos próprios analistas que receberam para acertar. Quer dizer, ou o consumidor não estava sufocado, ou existe um consumidor específico que nenhuma estatística oficial sabe medir. Provavelmente as duas coisas.
Aqui mora a graça da história. Quando o banco central de qualquer país do mundo decide imprimir trilhões para "salvar a economia", ele não está distribuindo o dinheiro novo igualmente entre os habitantes do planeta. O dinheiro novo entra pelo topo da pirâmide, passa pelos bancos comissionados, irriga os fundos, infla os ativos financeiros, e quando finalmente desce até o salário do operário já chegou desvalorizado e com a etiqueta da inflação colada. O resultado prático é que quem está perto da impressora compra Cartier, e quem está longe dela compra arroz mais caro. Chamam isso de política monetária. Eu chamo de transferência silenciosa de patrimônio.
Note o detalhe que ninguém comenta: a joalheria de altíssimo padrão é um termômetro. Não da economia em geral, que essa é uma abstração inútil, mas da concentração patrimonial gerada pela última década de juros artificiais, expansão monetária e socorro a quem nunca precisou de socorro. Cada Trinity vendido em Xangai, em Dubai, em Paris ou em São Paulo é o recibo de uma operação financeira que beneficiou alguém às custas de muitos. O brilho do ouro amarelo é proporcional à opacidade do balanço dos bancos centrais. Cartier não cresce no vácuo; cresce sobre a poupança alheia corroída.
E ainda existe o pudor moral, ou a ausência dele, dos analistas que celebram esses resultados como sinal de "resiliência do consumidor". Resiliência de quem, exatamente? Do brasileiro classe média que cortou plano de saúde mas viu o índice de luxo subir? Do europeu que paga energia quatro vezes mais cara mas vê o ETF de bens de consumo de alto padrão bater máxima? Existe uma economia paralela, blindada, financeirizada, descolada da produção real, e os mesmos jornalistas que ignoram essa fratura são os primeiros a se espantar quando os números aparecem. Me diz uma coisa: como é possível analisar trinta anos seguidos de divergência entre Wall Street e a rua e continuar tratando cada novo episódio como surpresa?
O que esse balanço da Richemont realmente conta, para quem sabe ler, é que o sistema atual de moeda fiduciária administrada por comitês não está quebrando; está funcionando exatamente como foi projetado por quem o desenhou. Concentra, infla ativos, dilui o trabalho, e premia a proximidade do poder monetário. A joia de Cartier é o troféu visível de uma engenharia invisível, e quem ainda finge que isso é mérito de marketing ou força da marca está dormindo no volante. A marca é boa, sem dúvida, mas a marca não imprime dinheiro; o Estado imprime, e o dinheiro novo precisa pousar em algum lugar mais bonito que um título do Tesouro.
Enquanto isso, o discurso oficial seguirá repetindo que a inflação é coisa do passado, que a recessão foi evitada, que a economia se reinventou. E você vai continuar pagando mais caro no supermercado, vendo seu salário derreter, e lendo notícias eufóricas sobre a resiliência do consumidor de luxo. Não existe contradição nisso. Existe um sistema que funciona perfeitamente para quem entende a regra do jogo, e uma narrativa cuidadosamente fabricada para quem não entende. Cartier não vende joia; vende o recibo da farsa.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.