A Rio Tinto fechou o primeiro trimestre de 2026 com aumento na produção de minério de ferro mesmo depois de ciclones atravessarem a região de Pilbara, na Austrália Ocidental, onde fica o coração de sua operação. Quem entende um pouco de mineração sabe o que isso significa: parar uma mina por causa de tempestade não é parar um escritório por causa de chuva. É evacuar pessoal, suspender ferrovias dedicadas, religar portos especializados, reabrir frentes de lavra que ficaram dias submersas. E a empresa não só absorveu o golpe como entregou volume maior. Não foi milagre, foi engenharia, capital privado e a velha disciplina de quem responde a acionista, não a sindicato de servidor.

Olha, é instrutivo comparar. A Rio Tinto opera num dos ambientes naturais mais hostis do planeta, com logística que envolve trens de quase trezentos vagões e portos que carregam navios de capesize em janelas de marés precisas. Tudo isso movido pela coisa mais simples do mundo: o preço do minério no mercado spot de Cingapura sobe ou desce, e a operação inteira reage em tempo real. Ninguém precisou criar um Ministério da Coordenação Pluviométrica para decidir quando reabrir o porto de Dampier. Os preços, esses sinais que tanto incomodam quem prefere planejar a vida dos outros, fizeram o trabalho silenciosamente.

Quer dizer, enquanto isso a Vale, que opera no país com a maior reserva de ferro do mundo, vive amarrada por TACs ambientais, MPs trabalhistas, royalties estaduais que mudam por capricho de governador, e uma CFEM cuja alíquota é discutida toda vez que algum prefeito do Pará descobre que existe orçamento federal. Não é à toa que a produtividade por trabalhador na operação australiana é múltiplos da brasileira. Não é o minério que é diferente. É o ambiente institucional. Lá, o ciclone passa e a empresa volta a operar. Aqui, a chuva é desculpa para mais uma rodada de licenciamento.

E vale seguir o dinheiro, como sempre. O minério de ferro australiano financia diretamente o orçamento estadual da Austrália Ocidental via royalties calculados sobre receita bruta, regra estável, contrato respeitado, ninguém muda no meio do jogo. O resultado é que o estado paga as contas, mantém superávit e ainda devolve dividendo para os cidadãos. No Brasil, a CFEM virou caixa de prefeitura para campanha eleitoral, e o setor mineral é tratado como vaca leiteira a ser ordenhada até secar, sem que ninguém se preocupe se a vaca vai amanhecer viva. Quando a vaca morre, a culpa, claro, é do capital estrangeiro.

O mais cômico é que a notícia da Rio Tinto vai ser lida em Brasília como evidência de que o setor mineral está aquecido e, portanto, pode pagar mais imposto. É a lógica do parasita: o hospedeiro está saudável demais, vamos drenar mais sangue. Ninguém pergunta por que a empresa que opera em Pilbara consegue erguer um porto novo em três anos enquanto no Brasil uma duplicação ferroviária leva quinze. A resposta exigiria reconhecer que o problema não é geológico, é jurídico, regulatório e cultural, e isso é admissão que nenhum tecnocrata está disposto a fazer.

Fica o retrato. Do outro lado do mundo, capital privado vence ciclone. Do nosso lado, capital privado é tratado como suspeito até prova em contrário, e a prova nunca é suficiente. Tempestade lá custa alguns dias de produção. Tempestade aqui chama-se segunda-feira no Diário Oficial.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.