Duzentos bilhões de dólares. Esse é o número mágico que analistas jogaram na mesa para descrever o suposto tamanho do mercado de robôs humanoides até 2035, e bastou a manchete circular para que fundos, gestores e influenciadores de planilha começassem a recitar a ladainha de sempre, aquela que diz que estamos diante da próxima revolução industrial, da nova internet, do novo isso, do novo aquilo. Quer dizer, a cada cinco anos é a mesma coisa. Em 2000 era a ponto com, em 2010 era o mobile, em 2017 era blockchain, em 2021 era metaverso, em 2023 era inteligência artificial generativa, e agora, convenientemente, é o robô que anda igual gente. O detalhe é que quase ninguém pergunta de onde sai o capital que vai bancar essa festa, e essa pergunta, justamente essa, é a única que importa.
Olha, projeção de mercado de uma década no futuro tem o mesmo valor epistemológico de horóscopo de revista de salão de cabeleireiro. Ninguém, absolutamente ninguém, sabe quanto valerá esse setor em 2035, pela razão simples de que o conhecimento necessário para essa previsão está distribuído entre milhões de engenheiros, consumidores, fornecedores de semicondutores, reguladores e empresários que nem nasceram ainda, e nenhum consultor de terno em Manhattan tem acesso a esse conhecimento. O que esses relatórios fazem, na prática, é fabricar narrativa para justificar a alocação de capital que já foi decidida em outro lugar, por outros motivos, geralmente envolvendo bancos centrais que mantiveram juros no chão por tanto tempo que o dinheiro precisa ir para algum lugar.
E aí está o truque que ninguém quer enxergar. Quando o crédito é artificialmente barato, quando a poupança real foi corroída pela inflação e quando o dinheiro impresso precisa encontrar destino, surgem como cogumelo depois da chuva esses setores futuristas que prometem retornos extraordinários daqui a uma década. É o ciclo clássico do boom artificial: capital despejado em projetos que jamais seriam viáveis numa economia com juros formados pela poupança real, gente contratada para construir coisas que talvez ninguém queira comprar, e uma euforia que mascara o fato de que estamos consumindo o futuro hoje, com a conta sendo empurrada para depois. O bust virá, como sempre vem, e quando vier o discurso mudará de mercado promissor para crise inesperada, como se ninguém pudesse ter previsto.
Tem ainda a parte mais sórdida, que é a relação incestuosa entre os fabricantes desses humanoides e os governos que já estão se mexendo para subsidiar, regular, incentivar e, claro, tributar. Os mesmos parlamentares que não sabem distinguir um algoritmo de uma receita de bolo já discutem leis sobre direitos de robôs, taxação de automação e fundos públicos para pesquisa, e adivinhe quem está no lobby empurrando essas pautas? As próprias empresas que vão receber o dinheiro do contribuinte travestido de política industrial. É o capitalismo de compadrio em sua forma mais polida, com terno bem cortado e apresentação em PowerPoint, mas no fundo a velha pilhagem de sempre, em que o trabalhador comum paga imposto para que algum bilionário em Palo Alto teste protótipos que talvez funcionem.
Existe ainda um aspecto que os entusiastas evitam mencionar, talvez por pudor, talvez por cinismo. Cada robô humanoide vendido com a promessa de substituir o garçom, o estoquista, o porteiro e o cuidador de idosos representa uma escolha civilizacional que ninguém debateu democraticamente, porque a decisão está sendo tomada nos conselhos de administração de quatro ou cinco empresas globais. Não se trata de ser contra tecnologia, longe disso; trata-se de notar que aquilo que se vê, o robô brilhante na vitrine, esconde aquilo que não se vê, que é a destruição de relações de trabalho, de tecidos comunitários, de formas de vida que levaram séculos para se constituir e que serão liquidadas em nome de eficiência sem que ninguém tenha sido perguntado se queria.
No final, o número de duzentos bilhões serve menos como projeção e mais como sinal. Sinal de que o dinheiro está barato demais, de que os incentivos estão tortos demais, de que o entusiasmo está alto demais. Quem viveu três ciclos sabe ler o sintoma. Quando todo mundo concorda que tal setor vai dominar o futuro, é exatamente o momento em que o investidor prudente fecha a carteira, observa o circo de longe e aguarda a próxima ressaca, porque ela vem. Sempre vem.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.